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Crítica | Coyote vs Acme

  • Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
    Igor Biagioni Rodrigues
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

É possível imaginar um Sísifo feliz! 

Por Igor Biagioni Rodrigues

Coyote vs Acme
'Coyote Vs. Acme' — Foto: Divulgação

Coyote vs. Acme é um agradecimento aos fãs. O filme quase foi o terceiro longa da Warner a ser cancelado mesmo estando totalmente pronto  (os outros dois são Batgirl e um especial de Natal de Scooby-Doo), em uma política de “contenção de gastos”, sendo tratado como um mero produto descartável. Mas, graças ao apelo dos fãs, a empresa não apagou completamente o filme, e os direitos de exibição foram comprados pela distribuidora independente Ketchup. Se o Coyote nunca consegue pegar o Papa-Léguas e nunca desiste, os fãs também não desistiram e fizeram com que o filme chegasse ao seu lugar de direito: as telonas.


Estreando no clássico Papa-Léguas: Rápido e Furioso (1949), dirigido por Chuck Jones e roteirizado por Michael Maltese, Coyote e Papa-Léguas estabeleceram o suprassumo do “gênero” gato e rato nas animações. Com uma ação frenética e um humor visual impagável, os personagens se tornaram gigantescos no imaginário popular, assim como diversos outros personagens dos Looney Tunes. Porém, mesmo com alguns live-actions na conta — seja o nostálgico, porém fraco, Space Jam, seja o subestimado Looney Tunes: De Volta a Ação —, ambos não tiveram tanto destaque até finalmente ganharem um filme próprio que talvez seja um dos melhores longas do tipo dentro do universo dos Looney Tunes, misturando animação com atores reais, algo que se popularizou com a obra-prima Uma Cilada para Roger Rabbit.


Coyote Vs. Acme
'Coyote Vs. Acme' — Foto: Divulgação

Baseado no artigo de Ian Frazier, Coyote vs. Acme acompanha a rivalidade clássica entre Wile E. Coyote e o Papa-Léguas. Incansável (até o momento) e convencido, o Coyote passa seus dias elaborando planos cada vez mais mirabolantes para capturar seu inimigo, utilizando os produtos da ACME Corporation. No entanto, como de costume, suas próprias armadilhas acabam se voltando contra ele. Cansado de acumular fracassos, ele decide responsabilizar a empresa pelos equipamentos que contribuíram para suas desventuras e parte para uma batalha judicial contra a própria ACME, que é simplesmente a maior empresa do planeta, fabricando desde utensílios domésticos até foguetes para missões lunares. Porém, há muito mais por trás dessa grande empresa, como o ultrassecreto Projeto Sísifo.


O longa possui uma sacada muitíssimo interessante e se transforma em uma clássica comédia caótica dos Looney Tunes, com diversas participações especiais de personagens desse rico universo, ao mesmo tempo em que apresenta divertidas cenas de ação dentro de um filme de tribunal. Além disso, o filme trabalha de maneira inteligente com o mito de Sísifo, relacionando-o ao Coyote e à própria rotina da natureza humana.


Na mitologia grega, Sísifo, rei de Corinto conhecido por sua astúcia, enganou os deuses e até a própria Morte em diferentes ocasiões. Como punição por sua insolência, foi condenado no submundo a empurrar eternamente uma enorme pedra até o topo de uma montanha. Sempre que estava prestes a alcançar o cume, a pedra rolava novamente para baixo, obrigando-o a recomeçar a tarefa. O mito tornou-se uma metáfora para o esforço repetitivo e aparentemente inútil, especialmente após a interpretação de Albert Camus, que relaciona o castigo de Sísifo à busca humana por sentido diante do absurdo da existência.


Coyote Vs. Acme
'Coyote Vs. Acme' — Foto: Divulgação

Essa ideia se relaciona diretamente com Coyote e Papa-Léguas. A dinâmica entre os dois é construída justamente sobre a repetição: o Coyote elabora uma nova estratégia, cria uma armadilha para capturar o Papa-Léguas, fracassa e acaba sofrendo as consequências de seu próprio plano, apenas para tentar novamente no episódio seguinte. Assim como Sísifo, ele está preso a um ciclo aparentemente interminável de tentativa, fracasso e recomeço.


A diferença é que, enquanto Camus encontra na consciência do absurdo uma possibilidade de revolta e felicidade, o Coyote parece incapaz de abandonar seu objetivo, sendo feliz ainda assim. Sua felicidade não está necessariamente em alcançar o Papa-Léguas, mas na própria insistência em continuar tentando. Para Coyote, cada fracasso não representa o fim de sua jornada, mas apenas o início de uma nova tentativa.


Coyote Vs. Acme
Patolino em 'Coyote Vs. Acme' — Foto: Divulgação

Em suma, o longa possui um humor visual digno das animações clássicas, uma crítica às grandes corporações (irônico, não?) e uma bonita mensagem sobre amizade, sonhos e persistência. Não importa quantas vezes a pedra role montanha abaixo; o importante é continuar empurrando.


Para quem só se importa com números:

Nota- 8/10.


Ficha Técnica:

Título Original: Coyote vs. Acme País de Origem: Estados Unidos

Roteiro: Samy Burch, James Gunn e Jeremy Slater, baseado num artigo de Ian Frazier

Direção: Dave Green

Classificação: Livre

Duração: 103 min.


Elenco:

Will Forte

Lana Condor

John Cena

Tone Bell

Martha Kelly

Luis Guzmán

P.J. Byrne

John Early 

Nancy Linehan Charles

Kenneth Choi 

Ernie Vigil

Eric Bauza

Candi Milo

Jim Cummings


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