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Crítica | O Agente Secreto (2025)

  • Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
    Igor Biagioni Rodrigues
  • 12 de mar.
  • 9 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.

Tubarão, Perna Cabeluda e um país sem memória

Por Igor Biagioni Rodrigues.


O Agente Secreto
"O Agente Secreto"- Reprodução

Vou começar com um disclaimer. O seguinte texto se dá mais como um (longo) ensaio mesclado com uma análise fílmica do que propriamente uma crítica em si.


“Ah, mas que não sei o quê, que não sei o que lá.” Ei! O site é de quem mesmo? É… foi o que eu pensei. (Brincadeirinha, gente!)


O Agente Secreto é uma síntese amalgamática de tudo o que o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho já fez e, por isso, talvez seja seu filme mais maduro. Ele é repleto de características próprias, com um fundo histórico e regional, personagens cativantes e um roteiro cheio de pirraça, que fazem do longa um dos filmes mais carismáticos e potentes política, narrativa e tecnicamente do cinema nacional recente, pelo menos desde a retomada do cinema brasileiro. Estruturando este texto, vejo como necessidade dividi-lo em tópicos específicos:


  • O Cinema de Retomada e a era Bolsonaro

  • A História de O Agente Secreto

  • Memória, o narrador e o regionalismo


Sem mais delongas… vamos à primeira parte:


O Cinema de Retomada e a era Bolsonaro


O Agente Secreto
"O Agente Secreto"- Reprodução

O chamado Cinema de Retomada designa o período de reestruturação da produção cinematográfica brasileira a partir da metade da década de 1990, após uma crise profunda que praticamente paralisou a atividade no início da década. Essa crise foi resultado direto das políticas econômicas adotadas pelo governo Fernando Collor, que extinguiu órgãos fundamentais para o funcionamento da indústria cinematográfica, como a Embrafilme e o Conselho Nacional de Cinema. Sem mecanismos institucionais de financiamento, distribuição e regulação, a produção nacional entrou em colapso, e o número de filmes realizados caiu drasticamente.


A partir da metade da década de 1990, o cenário começou a se modificar com a criação de novos mecanismos de incentivo à cultura. Leis como a Lei do Audiovisual e a Lei Rouanet permitiram que empresas e investidores privados aplicassem recursos na produção cinematográfica por meio de renúncia fiscal. Esse novo modelo de financiamento possibilitou a retomada gradual da produção de longas-metragens e o fortalecimento de parcerias entre produtoras independentes, distribuidoras e grandes grupos de mídia.


Nesse contexto, diversos filmes passaram a alcançar visibilidade nacional e internacional, contribuindo para a reconstrução da presença do cinema brasileiro nas salas de exibição. Produções como Carlota Joaquina: Princesa do Brasil, Central do Brasil e Cidade de Deus tornaram-se marcos simbólicos desse período, demonstrando que o cinema nacional era capaz de dialogar novamente com o público e com o circuito internacional de festivais. Mais do que um movimento estético homogêneo, o Cinema de Retomada caracteriza-se principalmente por sua dimensão industrial e institucional, marcada pela reorganização das condições de produção, financiamento e distribuição do audiovisual no país.


Entretanto, apesar do fortalecimento do setor nas décadas seguintes, o cinema brasileiro voltou a enfrentar um momento de grande dificuldade a partir do final da década de 2010. Durante o governo Jair Bolsonaro, houve forte instabilidade nas políticas culturais e no funcionamento das instituições responsáveis pelo fomento ao audiovisual. A paralisação de investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), as pressões políticas sobre a Agência Nacional do Cinema (Ancine) e o enfraquecimento de mecanismos de proteção ao cinema nacional contribuíram para um cenário de incerteza na produção e na circulação de filmes brasileiros.


Esse contexto foi agravado pela pandemia de Covid-19, que impactou diretamente as salas de cinema e a cadeia produtiva do audiovisual. Assim, após o processo de recuperação iniciado com o Cinema de Retomada, o setor voltou a enfrentar desafios estruturais que colocaram em risco a continuidade das políticas públicas responsáveis por sustentar a produção cinematográfica nacional.


Após o fim de tal governo e uma retomada da liberação de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), além de outros investimentos no setor, pode-se dizer que o cinema nacional contemporâneo passa por uma espécie de nova retomada. É apenas uma comparação (os acontecimentos e contextos são diferentes) , mas podemos fazer essa analogia, uma vez que o cinema nacional vem superando uma crise, recebendo mais investimento (apesar de que muita coisa ainda pode melhorar, não só em relação ao audiovisual, mas no Ministério da Cultura como um todo…) e ganhando mais destaque internacionalmente (vide todo o sucesso de Ainda Estou Aqui) e, melhor ainda, mais atenção daquele público que mais importa: nós, brasileiros.


Mas por que toda essa contextualização? Justamente pelo fato de que, como afirmado inúmeras vezes pelo próprio Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto foi fruto de uma inquietação dele e de Wagner Moura com tudo o que o país vivia, não apenas na indústria cinematográfica, mas também politicamente, com a ascensão de um governo de extrema direita e tudo o que isso causou no país.


A História de O Agente Secreto


O Agente Secreto
"O Agente Secreto"- Reprodução.

Em O Agente Secreto, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, a narrativa se passa no Brasil de 1977. A história acompanha Armando (Wagner Moura), um professor de cerca de 40 anos especializado em tecnologia que decide deixar a agitada São Paulo e se mudar para Recife. Tentando escapar de um passado violento e enigmático, ele busca na mudança a chance de recomeçar a vida. No entanto, sua chegada coincide com a semana do Carnaval, e aquilo que parecia ser um refúgio tranquilo começa gradualmente a perder a calma. Com o passar dos dias, Armando percebe que o caos do qual tentou fugir parece tê-lo seguido, e a cidade que imaginava ser um abrigo seguro revela-se cada vez mais distante dessa promessa.


O longa começa com um prólogo (este que surgiu de um curta de Kleber Mendonça que nunca viu a luz do dia) que já estabelece o tom do filme. Vemos o personagem de Wagner Moura, até então não nomeado, chegar em seu fusca amarelo a um posto de gasolina na estrada. Um pouco à frente das bombas, há o corpo de um defunto com um papelão e uma pedra por cima. O dono do posto apenas espanta os cachorros que tentam comer aquele corpo morto e inerte desde a noite anterior, uma vez que a polícia não vai fazer muita coisa em uma semana de Carnaval.


Porém, quando a polícia chega, não se interessa pelo corpo, mas sim pelo homem que dirige o fusca, que recebe os policiais calmamente. Esse clima de tensão, construindo um thriller que se desenrola ao longo do tempo, é uma boa forma de sintetizar tudo o que veríamos durante os aproximadamente 160 minutos de filme.


O longa continua, e o personagem de Wagner Moura é finalmente nomeado. Armando (que utiliza o nome de Marcelo como disfarce) chega a um abrigo na cidade, sendo recebido por Dona Sebastiana (Tânia Maria, atriz que se revelou uma das melhores surpresas da dramaturgia brasileira nos últimos tempos, dona de um carisma impressionante que cativa durante os aproximadamente 13 minutos de tempo de tela em que domina as cenas com maestria), uma senhora cheia de segredos, mas acima de tudo extremamente respeitosa em relação às diferenças dos outros, vide a cena com a gata com dois rostos e com Clóvis (“O Clóvis é homem, não é Clóvis? Mas não do jeito que eles querem”).


No albergue administrado por Dona Sebastiana convivem diversos dissidentes políticos e refugiados que, assim como ele, carregam histórias marcadas por conflitos e perseguições. Enquanto tenta manter uma rotina discreta trabalhando em um instituto ligado à polícia civil e investigando fragmentos de sua própria história familiar, Marcelo passa a perceber que forças poderosas continuam ligadas ao seu passado.


Paralelamente, uma série de acontecimentos estranhos e violentos começa a emergir na cidade, envolvendo autoridades corruptas, disputas políticas e personagens que parecem seguir os passos do protagonista. À medida que o clima festivo do Carnaval contrasta com uma atmosfera crescente de tensão e paranoia, Marcelo se vê cada vez mais cercado por ameaças invisíveis.


Tecnicamente, o filme é deslumbrante. A direção de arte de Thales Junqueira e os figurinos de Rita Azevedo ajudam a dar vida à Recife dos anos 1970 retratada por Kleber Mendonça Filho com muito esmero. A direção de fotografia de Evgenia Alexandrova, com o uso de um color grading (etapa de pós-produção que estiliza cor e contraste) com cores mais fortes e uma imagem mais granulada, dá a impressão de que o filme foi realmente gravado na época em que se passa.


Além de todo o excelente elenco, é claro que o destaque vai para Wagner Moura, que entrega uma de suas melhores, se não a melhor, atuações de sua carreira. Eu sempre defendo que uma boa atuação não é aquela que se destaca em momentos explosivos; pelo contrário, é aquela que transmite muito, principalmente com o olhar. O personagem de Marcelo é calmo, sereno e carrega muito peso dramático sem dizer nada, e isso é atuação da mais alta qualidade.


É interessante também comentar rapidamente (esse texto já está gigante) a influência do cinema dentro da narrativa. Seja por Tubarão ou pelo Cinema São Luiz, é muito claro o amor de Kleber pelo cinema, principalmente pelo cinema de rua, algo que ele já havia demonstrado em seu documentário Retratos Fantasmas.


Mas o filme, apesar de tudo, não é perfeito. Em minha perspectiva, sinto que ele perde força no final da investigação que se passa no presente, explicitando demais algo que funcionaria melhor nas entrelinhas.


Memória, o narrador e o regionalismo


O Agente Secreto
Wagner Moura em "O Agente Secreto"- Reprodução.

É quase imprescindível não analisarmos O Agente Secreto tendo em perspectiva de comparação o filme Ainda Estou Aqui. Isso se deve ao fato do contexto histórico que ambos abordam em suas narrativas, mas também a tudo o que os envolve na realidade, ou seja, nas premiações internacionais de cinema.


Ambos os filmes retratam o período da ditadura. Ambos os filmes são sobre memória. Mas a maneira como abordam essa temática é totalmente diferente (e uma não diminui a outra, que fique claro).


Mas tenhamos uma coisa em mente: quem conta uma história, ou a História, é quem tem poder. E a história brasileira é pautada no eixo do Sudeste. Walter Salles é carioca. Walter Salles é bilionário. A família de Rubens Paiva era rica e influente no país. Então, faz sentido que Ainda Estou Aqui venha contar sobre a ditadura de uma forma mais familiar e em um tom universalizante, algo que fez com que o longa pudesse ganhar mais destaque fora do país.


E aqui vem a diferença de retratação de Kleber Mendonça. O diretor sempre defendeu que todo filme é uma fonte histórica. Ele é pernambucano, foi crítico de cinema e, em suas obras, há sempre um teor mais regional, que aqui encontra muita força. Além disso, ele utiliza uma representação mais surreal/mitológica para retratar fatos reais e/ou criar metáforas: vide a Perna Cabeluda e o Tubarão para simbolizar as atitudes opressoras dos policiais.


Aqui, ele também traz um lado da ditadura pouco debatido: a ditadura empresarial. Marcelo é perseguido pelas forças do Estado, mas somente devido a um interesse ligado a um rico e poderoso empresário.


Por falar em narrador, há outra diferença entre os dois filmes. Ainda Estou Aqui segue uma linhagem estrutural de narrativa que caminha entre início e fim planejados. O Agente Secreto tem a história de Marcelo sendo encerrada de forma abrupta, contada por jornais, ou melhor, em rodapés de jornais. É a história de um entre tantos outros que se perderam na vastidão dos acontecimentos hediondos da ditadura militar.


É interessante pensar sobre como a história de Marcelo é narrada pela mídia. No ensaio “O Narrador”, de Walter Benjamin, o autor discute o declínio da arte tradicional de narrar histórias na modernidade. Para Benjamin, nas sociedades antigas a narrativa era uma forma fundamental de transmitir experiências e sabedoria de vida, geralmente compartilhadas oralmente entre gerações. O narrador não apenas contava acontecimentos, mas oferecia conselhos, ensinamentos e sentidos práticos extraídos da experiência vivida.


Segundo o autor, com o avanço da modernidade, especialmente com o crescimento da imprensa, da informação rápida e do romance moderno, essa forma de narrativa entrou em crise. A informação jornalística, por exemplo, privilegia a novidade e a imediaticidade, enquanto a narrativa tradicional depende do tempo, da memória e da experiência acumulada. Assim, a sociedade moderna passa a valorizar mais a informação do que a experiência compartilhada.


Desse modo, a ideia central do ensaio é que a modernidade provocou o empobrecimento da experiência comunicável, levando ao desaparecimento progressivo da figura do narrador tradicional. Para Benjamin, essa transformação revela mudanças profundas na maneira como os indivíduos se relacionam com a memória, a tradição e o sentido das histórias.


Isso se reflete diretamente na história de O Agente Secreto. Temos o longa sendo contado através de uma pesquisa jornalística de uma estudante através de gravações de fitas de entrevistas da época e de matérias de jornais.


Armando buscava a identidade de sua mãe, uma memória. Seu filho quer se esquecer de sua mãe. A história de Marcelo é esquecida e vira um verdadeiro quebra-cabeça, e isso é uma dura mensagem do filme.


Ele não importa. O protagonista que você acompanhou virou nota de rodapé.


Com quantas pessoas isso não aconteceu? Quantos Armandos existiram para que lembremos de Rubens Paiva? E isso não falo desmerecendo toda a história de dor e sofrimento que a família de Rubens passou; pelo contrário: é para mostrar que, infelizmente, outras inúmeras pessoas jamais terão sua história contada. Foram e serão esquecidas em um país que, a cada ano que passa, também esquece a dor de sua própria história.


Para quem só se importa com números…


Pera aí, vocês realmente querem que eu dê uma nota depois de tudo isso?

Ai… não suporto isso de nota. É horrível metrificar arte…


Mas enfim, é isso que engaja muito de vocês, não é?

Nota- 9/10.


Ficha Técnica:

Título Original: O Agente Secreto

País de Origem: Brasil, França, Países Baixos e Alemanha

Roteiro: Kleber Mendonça Filho

Direção: Kleber Mendonça Filho

Duração: 158 min.

Classificação: 16 anos


Elenco:

Wagner Moura como Marcelo / Armando

Carlos Francisco como Seu Alexandre

Tânia Maria como Dona Sebastiana

Robério Diógenes como Euclides

Maria Fernanda Cândido como Elza

Gabriel Leone como Bobbi

Roney Villela como Augusto

Hermila Guedes como Cláudia

Isabél Zuaa como Tereza Vitória

Alice Carvalho como Fátima

Laura Lufési como Flávia

Thomás Aquino como Arlindo

Igor de Araújo como Sérgio

Udo Kier como Hans

João Vitor Silva como Haroldo

Kaiony Venâncio como Vilmar

Suzy Lopes como Carmen

Buda Lira como Anízio


Referências:


BENJAMIN, Walter. "O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov". In: Obras Escolhidas: Magia, Técnica, Arte e Política.






2 comentários


danbrodrigues
14 de mar.

É os irmãos Biagioni Rodrigues, esse ano, estão ainda mais psicanalíticos em suas análises. Parabéns! E uma boa aposta para o hoje e o amanhã. Valeu" meninos".

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desenhandorecordat
desenhandorecordat
15 de mar.
Respondendo a

Muito obrigado (:

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