Crítica | Avatar: Fogo e Cinzas (2025)
- Igor Biagioni Rodrigues

- 26 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
O visual? Pegando fogo!🔥 O roteiro? Só as cinzas…

A ambição de James Cameron em contar a história de Jake Sully, sua família e Pandora como um todo é realmente louvável, e até certo ponto é aceitável abrir mão de uma maior sofisticação narrativa em favor de avanços técnicos. Mas até quando? O primeiro Avatar, lançado em 2009, revolucionou o uso do 3D e inaugurou uma onda (felizmente passageira) de filmes convertidos artificialmente para o formato, muitas vezes apenas para surfar no hype e encarecer ingressos. Treze anos depois, em 2022, Avatar: O Caminho da Água chegou com uma evolução tecnológica impressionante, aliada à obsessão visual de Cameron, resultando talvez na obra subaquática mais impressionante da história do cinema em termos técnicos. Agora, três anos após o segundo filme, o terceiro capítulo da franquia chega prometendo novidades, mas entregando principalmente a sensação de que talvez já seja hora, para nós e para o próprio diretor, de deixar Pandora descansar por um tempo.
Avatar: Fogo e Cinzas leva o público de volta ao planeta em uma nova jornada ao lado da família Sully. Após a guerra devastadora contra os humanos e a morte de seu filho mais velho, Jake Sully (Sam Worthington) e Neytiri (Zoe Saldaña) enfrentam uma nova ameaça: o Povo das Cinzas, uma tribo Na’vi violenta e hostil, movida pela ambição e liderada pela temida Varang (Oona Chaplin - sim, ela é a neta de quem você está pensando). Formado por guerreiros capazes de dominar o fogo, esse clã possui uma lealdade instável, capaz de desequilibrar o destino de Pandora. Com a retomada dos esforços humanos de colonização e a ascensão desse novo inimigo, a família Sully é levada ao limite de suas forças físicas e emocionais para preservar sua sobrevivência, seu lar e a esperança de equilíbrio.

Convenhamos: os dois (talvez até mesmo os três) filmes são muito parecidos. E sim, os dois últimos foram produzidos de forma relativamente simultânea, mas não é porque a franquia foca em questões ambientalistas que deveria reciclar a história. Não tenho problema com a narrativa simplória (mas não ruim) desses longas, já que o grande mérito de Avatar sempre foi o espetáculo visual. O problema é que, desta vez, não há novidade nem narrativa, nem tecnológica. Em O Caminho da Água, apesar das críticas ao roteiro, era impossível ignorar a força visual e a construção de mundo, especialmente ao explorar o Povo do Recife e o ambiente aquático. Já Fogo e Cinzas promete o fogo em seu título e sinopse, mas esse elemento é tão subaproveitado quanto o clã Mangkwan e sua líder Varang.
Parece que Cameron gostou tanto do que criou em relação ao Povo do Recife, os Metkayina (e com razão), que decidiu permanecer ali novamente, reciclando ambientes, animais, dramas e lutas (as batalhas acontecem nos mesmos lugares, gente…). Sendo assim, a película perde a maior oportunidade que tinha: desenvolver um novo aspecto/elemento de Pandora, o fogo, assim como fez tão bem com a água; falar sobre a cultura do clã que mora sob um vulcão; e fazer de Varang uma vilã mais aprofundada, não apenas um estepe para tentar alavancar a vilania de Quaritch (Stephen Lang).

Digo e repito: esse novo clã de Na’vi é um dos pontos criativos mais altos da franquia, assim como os Metkayina foram na segunda película. Focar em sua filosofia niilista perante Eywa, devido ao local onde moram, e em como isso se reflete fisicamente em seus corpos (mais magros e acinzentados) seria um grande trunfo. Se a força de O Caminho da Água estava na construção de mundo, aqui o terceiro filme parece pouco interessado nisso, apesar de lampejos interessantes, como as breves cenas com os Na’vi comerciantes que viajam em barcos aéreos.
Com mais de três horas de duração, o filme se perde em subtramas repetitivas, com diálogos pobres, que retomam problemas e relações entre personagens já trabalhados e resolvidos nos dois filmes anteriores. Partindo do luto pela morte de Neteyam (Jamie Flatters), Fogo e Cinzas assume um tom mais introspectivo ao retratar uma família Sully emocionalmente fragmentada: Jake exausto e em crise de fé, Neytiri consumida pelo ódio e Lo’ak (Britain Dalton) afundado na culpa. Esse ponto de partida é coerente e necessário, mas o filme retorna repetidamente às mesmas dores sem permitir transformações reais. As crises existem: da radicalização moral de Neytiri ao arco sombrio de Lo’ak, mas o roteiro sempre recua antes de consequências irreversíveis, resolvendo conflitos de forma apressada. O luto pesa e emociona em momentos pontuais, mas nunca rompe a narrativa a ponto de deixar um impacto que realmente dure.

O aspecto messiânico trazido pela personagem Kiri (Sigourney Weaver) é uma faca de dois gumes. Essa ideia sempre esteve presente em sua trajetória, mas ao transformá-la em fruto de uma partenogênese e elevá-la a níveis quase divinos, à la Anakin Skywalker, o filme corre o risco de enfraquecer seus conflitos futuros.
James Cameron é um excelente diretor de filmes blockbuster (basta ver os resultados monetários que seus filmes geram). Sua capacidade de proporcionar a experiência coletiva de assistir a um filme no cinema com a melhor qualidade de som e imagem possível (a melhor forma de se assistir à franquia Avatar como um todo) é inegável. Porém, sua fixação em contar a história de Pandora nos faz questionar que outros filmes ele poderia estar fazendo se delegasse a função de direção de Avatar a outros diretores, sob sua supervisão.
Como experiência cinematográfica, Avatar: Fogo e Cinzas continua sendo um espetáculo impressionante. É um filme bonito, grandioso e, em muitos momentos, emocionalmente sincero. É cinema-espetáculo em seu estado mais puro, feito para ser visto na maior tela possível. No entanto, é justamente no campo narrativo que o longa mais tropeça. Sua estrutura repete, quase sem variações, a fórmula já conhecida da franquia. O resultado é um filme que impressiona os sentidos, mas carece de ousadia para renovar sua própria história, deixando a sensação de que Pandora, assim como Cameron, talvez precise encontrar novos caminhos.
Para quem só se importa com números:
Nota- 6/10.
Ficha Técnica:
Título Original: Avatar: Fire and Ash
País de Origem: Estados Unidos
Roteiro: James Cameron, Rick Jaffa, Amanda Silver (baseado em história de James Cameron, Rick Jaffa, Amanda Silver, Josh Friedman, Shane Salerno)
Direção: James Cameron
Duração: 197 min.
Classificação: 14 anos.
Elenco:
Sam Worthington como Jake Sully
Zoe Saldaña como Neytiri
Sigourney Weaver como Kiri
Stephen Lang como Coronel Miles Quaritch
Oona Chaplin como Varang
Cliff Curtis como Tonowari
Britain Dalton como Lo’ak
Trinity Bliss como Tuktirey (Tuk)
Jack Champion como Spider (Miles Socorro)
CCH Pounder como Mo'at.
Brendan Cowell como Capitão Mick Scoresby.
Jemaine Clement como Dr. Ian Garvin.
Jamie Flatters como Neteyam.






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