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Crítica| Foi Apenas um Acidente (2025)

  • Foto do escritor: Iuri Biagioni Rodrigues
    Iuri Biagioni Rodrigues
  • há 12 horas
  • 3 min de leitura

Um excelente uso do humor como ferramenta de crítica social

Por Iuri Biagioni Rodrigues

Foi Apenas um Acidente
"Foi apenas um acidente" — Foto: Divulgação

Foi Apenas um Acidente é um filme escrito e dirigido por Jafar Panahi, cineasta iraniano conhecido pelas críticas ao regime autoritário de seu país. Panahi já foi preso duas vezes e, recentemente, foi condenado à prisão por realizar "propaganda contra o Estado". Devido à constante vigilância, Jafar Panahi precisou criar seu filme de maneira clandestina, com equipe e recursos reduzidos. Além disso, por causa da censura e repressão política no Irã, sua obra concorre às premiações representando a França.


Na trama, vemos uma família, marido, esposa e filha, andando de carro por uma estrada, quando o veículo começa a apresentar problemas após ter atropelado, acidentalmente, um cachorro. Procurando ajuda, eles param em uma oficina. No local, o mecânico Vahid (Vahid Mobasseri) escuta a voz e o rangido da prótese na perna do motorista. Com isso, Vahid muda completamente de semblante e até passa falar alterando a própria voz.


Inicialmente, não entendemos o motivo disso, mas logo descobrimos que ele acredita que o homem que entrou em sua oficina é seu antigo torturador, conhecido como "Eghbal"(Ebrahim Azizi). Para sanar a dúvida, Vahid decide sequestrá-lo e levá-lo para o deserto com a intenção de enterrá-lo vivo e ouvir uma confissão. Entretanto, o homem nega veementemente.


Com medo de matar a pessoa errada, o mecânico decide pedir ajuda para Salar, um colega que também esteve preso. Salar (Georges Hashemzadeh) recomenda uma conversa com uma moça, Shiva (Mariam Afshari), que passou pela mesma situação Assim, aos poucos, a história reúne um grupo de pessoas completamente diferentes que acabam se unindo com a intenção de reconhecer se o homem capturado por Vahid é o terrível torturador que gerou traumas em todos. Os personagens Vahid, Shiva e seus parceiros Golrokh (Hadis Pakbaten), Ali (Majid Panahi) e Hamid (Mohammad Ali Elyasmehr) são bem trabalhados e funcionam bem dentro da narrativa que discute memória, autoritarismo e justiça.


Foi Apenas um Acidente
"Foi apenas um acidente" — Foto: Divulgação

Obviamente, a ideia do grupo é vingança, mas, apesar do ódio, dos traumas, das cicatrizes e das dores físicas e psicológicas, a situação é mais difícil do que pareceria. Os personagens precisam lidar com os seguintes questionamentos: "e se não for Eghbal?", "será que a vingança vale a pena?", "a morte de Eghbal vai nos trazer paz?" "sequestrar, agredir e matar nosso torturador não nos tornaria tão ruins quanto ele?", entre outras questões. Personagens como Hamid querem resolver tudo rapidamente; outros como Vahid e Shiva, preferem refletir mais sobre o assunto. Os diálogos são muito bem escritos, reforçando a qualidade do roteiro de Panahi. Além disso, os atores trabalham essa tensão muito bem, equilibrando momentos de raiva, agonia e risos.


Enquanto a dúvida persiste, o grupo se depara com diversas desventuras, como fingir fotos de casamento em local vigiado e inusitado e até mesmo levar a esposa grávida de Eghbal ao hospital! Assim, em meio ao humor e a situações inesperadas, o diretor Jafar Panahi conduz uma ótima reflexão sobre ética, memória e justiça. 


Falando em humor, Foi Apenas um Acidente é um ótimo exemplo do uso do humor e de situações absurdas como crítica social. Aqui, o humor não é fuga ou escapismo; ele é ácido e mais comprometido com a crítica social do que com o riso. Portanto, o longa discute os traumas e as consequências que o autoritarismo, a repressão política e a tortura deixam nas pessoas. O final é tenso e ambíguo, completando com qualidade a proposta de Panahi.


Para quem só se importa com números:

Nota: 8/10


Dados do Filme:

Título original: یک تصادف ساده /Yek tasadef sadeh / It Was Just an Accident

País de origem: Irã/França/Luxemburgo

Roteiro: Jafar Panahi

Direção: Jafar Panahi

Duração: 1h43min

Classificação indicativa: 14 anos



Elenco:

Vahid Mobasseri como Vahid

Mariam Afshari como Shiva

Ebrahim Azizi como Eghbal

Hadis Pakbaten como Goli/Golrokh

Majid Panahi como Ali

Mohammad Ali Elyasmehr como Hamid

Delnaz Najafi como filha de Eghbal

Afssaneh Najmabadi como esposa de Eghbal

Georges Hashemzadeh como Salar

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