Crítica | Super Mario Galaxy – O Filme (2026)
- Igor Biagioni Rodrigues
- há 3 dias
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Montagem, Cinema Impuro e um filme cansativo
Por Igor Biagioni Rodrigues.

Com o sucesso gigantesco do primeiro filme, era questão de tempo até que Mario ganhasse uma continuação. E longe de mim dizer que isso é algo ruim; pelo contrário, Mario possui um universo rico, divertido e extremamente cativante, que pode funcionar muito bem nos cinemas; ao menos do ponto de vista comercial. Cinematograficamente, porém, se os próximos filmes continuarem nesse nível de qualidade, servirão apenas como longas caça-níquel.
Super Mario Galaxy – O Filme é extremamente cansativo, sobretudo por conta de sua montagem frenética (ainda mais acelerada do que a do primeiro longa), aliada a uma narrativa frágil que tenta se sustentar em referências aos jogos, mas não consegue nem mesmo desenvolver adequadamente seus protagonistas.
Na trama, Mario, Luigi, Peach e Toad embarcam em uma jornada espacial após Bowser Jr. sequestrar a Princesa Rosalina, a Mãe das Estrelas, com o objetivo de libertar seu pai e dominar todas as galáxias. Expandindo o universo do primeiro filme, a história acompanha o grupo atravessando diferentes mundos e se unindo a Yoshi para enfrentar essa nova ameaça cósmica.
O primeiro longa já havia apresentado seus personagens principais de forma honesta e divertida, mas o que se vê aqui é um verdadeiro desserviço. O filme tenta dividir o protagonismo entre Mario, Luigi e Peach, mas não sabe como equilibrar esses núcleos, deixando todos dispersos. Além disso, insere inúmeros personagens apenas como referência superficial, sem função dramática, o que impede qualquer envolvimento emocional. Enquanto o primeiro filme construía bem a relação entre os irmãos, aqui essa evolução é abandonada. O mesmo vale para Peach, que poderia ter uma jornada de autodescoberta mais consistente, mas cuja promessa nunca se cumpre. Sua relação com Rosalina mal é desenvolvida, e Yoshi, por sua vez, não possui função narrativa alguma, servindo apenas como elemento “fofo” para o público (eu já o acho fofo, não precisa ficar jogando isso em tela toda hora, gente!).

Ao final da sessão, a sensação é de exaustão. São acontecimentos em sequência, trilha sonora constantemente épica, excesso de personagens, referências aos jogos, cenas de ação, gags visuais e movimentos de câmera incessantes. A montagem não oferece um único momento de respiro. Esse ritmo acelerado reflete não apenas uma escolha estética, mas também uma tentativa clara de capturar a atenção do público-alvo (especialmente as crianças), dialogando com a forma contemporânea de consumo de conteúdo.
Nesse sentido, é inevitável pensar no impacto das redes sociais de vídeos curtos, como TikTok e Instagram, na maneira como consumimos audiovisual. Hoje, muitas vezes, a televisão se torna uma segunda tela, dividindo espaço com o celular. Esse consumo fragmentado afeta nossa capacidade de concentração em narrativas mais longas e complexas (a cada "novelinha vertical" feita por IA que eu vejo -contra a minha vontade- eu sinto que emburreço). Além disso, influencia diretamente a forma como os produtos são feitos; basta observar produções da Netflix, que frequentemente explicam tudo em cena e buscam fisgar o espectador nos primeiros minutos.
Mas o que isso tem a ver com Super Mario Galaxy – O Filme e sua montagem? (Tá vendo a ansiedade?) Tudo. Antes, porém, vale uma definição básica: montagem (ou edição) é o processo de pós-produção responsável por selecionar, organizar e ajustar os planos de uma obra audiovisual para alcançar determinado efeito; narrativo, dramático, visual ou informativo.
A montagem é essencial para o ritmo e, consequentemente, o tom de um filme. Aqui, ela é excessivamente acelerada, impedindo qualquer contemplação ou assimilação do que está sendo mostrado. Em vez de construir uma progressão narrativa sólida, o longa despeja sequências de ação e referências que parecem existir apenas para gerar discussão e reconhecimento imediato pelo público. Um exemplo claro disso é a transformação de Mario e Luigi em bebês: O que isso acrescenta ao plot geral da película além de fazer o espectador fã dos games da franquia apontar para tela tal qual o meme do DiCaprio?

Na época do primeiro filme, discutiu-se muito se ele funcionava apenas como um comercial da Nintendo; algo com o qual, particularmente, discordo. O longa anterior conseguia traduzir a jogabilidade dos games para a linguagem cinematográfica de maneira criativa e funcional. Curiosamente, os melhores momentos desta continuação são justamente aqueles em que isso volta a acontecer (poderiam ter focado mais nesse aspecto).
E aqui entramos em um ponto fundamental: a adaptação. André Bazin, um dos mais importantes teóricos do cinema e cofundador da Cahiers du Cinéma, defendeu em seu ensaio “Por um cinema impuro” que o cinema evolui justamente por dialogar com outras artes. Expandindo essa ideia para os games, é possível pensar que boas adaptações não devem apenas copiar o material original, mas reinterpretá-lo dentro de sua linguagem.
Nos últimos anos, adaptações de jogos têm se tornado cada vez mais frequentes, e a indústria tem aprendido a valorizar mais o material de origem. A franquia Sonic é um bom exemplo: à medida que passou a respeitar mais o universo dos jogos, seus filmes melhoraram. Em Super Mario Galaxy – O Filme, há respeito e fidelidade ao material original, mas isso não deveria significar mera reprodução. Em outro texto, “Le cinéma comme digest”, Bazin discute como adaptações podem simplificar obras, mas também democratizá-las. Ou seja, esses filmes precisam funcionar tanto para fãs quanto para novos públicos.
O ideal seria traduzir a linguagem dos jogos para o cinema de forma criativa, como acontece, por exemplo, nas sequências em que os obstáculos criados por Bowser e Bowser Jr. remetem diretamente às fases dos games, mas são reinterpretados dentro da lógica narrativa do filme. São momentos interessantes, que mostram o potencial que a obra poderia ter explorado mais.

Mas o filme não tem qualidades? Claro que tem. Sua parte técnica é inegável: a animação em 3D é excepcional, desde a modelagem dos personagens até os detalhes de textura. Além disso, o filme diverte, arranca risadas e possui referências interessantes.
O problema é que, no fim das contas, ele se comporta como mais uma sequência típica da Illumination, voltada prioritariamente ao lucro (como já se vê em Meu Malvado Favorito), desperdiçando a oportunidade de se reinventar como adaptação e de construir uma narrativa realmente envolvente. Se os próximos filmes seguirem esse caminho, a franquia pode até continuar rendendo algumas boas moedas, mas fará o seu potencial criativo descer pelo cano.
Para quem só se importa com números:
Nota- 5/10.
Ficha técnica:
Título Original: The Super Mario Galaxy Movie
País de Origem: Estados Unidos e Japão
Roteiro: Matthew Fogel (baseado em criação de Shigeru Miyamoto)
Direção: Aaron Horvath, Michael Jelenic, Pierre Leduc, Fabien Polack
Classificação: 6 anos
Duração: 98 min.
Elenco:
Brie Larson
Virginia Dare Jelenic
Benny Safdie
Kevin Michael Richardson
Chris Pratt
Charlie Day
Donald Glover
Keegan-Michael Key
Anya Taylor-Joy
Eric Bauza
Jack Black
Roxana Ortega
Luis Guzmán
Issa Rae
Ed Skudder
Glen Powell
Juliet Jelenic
Versão Brasileira:
Estúdio de Dublagem: Delart
Com as vozes de:
Aline Ghezzi
Charles Emmanuel
Ricardo Juarez
Raphael Rossatto
Manolo Rey
Eduardo Drummond
Carina Eiras
Marcio Dondi
Flavia Fontenelle
Anderson Coutinho
Sarito Rodrigues
Nano Max
Felipe Drummond
Monique Filardy


