CrÃtica | Sonhos de Trem (2025)
- Igor Biagioni Rodrigues
- 27 de jan.
- 3 min de leitura
OnÃrico e literário…
Por Igor Biagioni Rodrigues.

Existem filmes que funcionam como exercÃcios contemplativos. Obras que, ao chegarem ao fim, nos fazem permanecer em silêncio, no escuro da sala, iluminados apenas pela luz dos créditos e embalados pela música que ainda ecoa. Sonhos de Trem é exatamente esse tipo de filme: uma experiência que convida mais à reflexão e ao sentir do que à simples compreensão racional.
Em Sonhos de Trem, acompanhamos Robert Grainier (Joel Edgerton), um entre tantos trabalhadores responsáveis pela construção e expansão das ferrovias norte-americanas no inÃcio do século XX. Órfão desde muito jovem, Robert cresceu em meio à s vastas e imponentes florestas do Noroeste do PacÃfico, aprendendo a sobreviver em um ambiente tão grandioso quanto implacável. Com o avanço acelerado do século, o trabalho exaustivo o mantém por longos perÃodos afastado de quem mais ama: sua esposa, Gladys (Felicity Jones), e sua filha pequena. O filme percorre a vida de Robert em seus gestos cotidianos, suas breves felicidades, tragédias e incertezas, tudo isso inserido em um Estados Unidos em plena e profunda transformação ao longo do século XX.
Acompanhamos a trajetória de Robert como se estivéssemos lendo capÃtulos de um livro. Conhecemo-lo ainda jovem: ele nunca conheceu os pais, e uma de suas memórias mais antigas está ligada a uma profunda injustiça social. Desde cedo, tenta compreender o mundo e, sobretudo, seu lugar nele. Nada parece fazer sentido até o encontro com Gladys, o grande amor de sua vida. Vemos sua famÃlia se formar, a relevância de seu trabalho e, ao mesmo tempo, o peso da ausência constante no lar.
Robert é um homem solitário. Ainda assim, em suas poucas interações, os vÃnculos que constrói e as conversas que compartilha acabam moldando sua existência. Seja com o veterano Arn Peeples (interpretado de forma calorosa por William H. Macy), com o dono da venda Ignatius Jack (Nathaniel Arcand), com a ex-enfermeira (Claire Thompson) ou, principalmente, com sua famÃlia, são essas relações que o ajudam a compreender o significado de sua passagem pelo mundo.

Apesar de ambientado em um contexto histórico e geográfico bastante especÃfico, o longa se revela profundamente universal, abordando temas como luto, imigração, questões ambientais e relações familiares. Grande parte da força do filme reside em sua construção visual. Com a excelente direção de fotografia do brasileiro Adolpho Veloso, a natureza deixa de ser apenas cenário e se transforma em um personagem fundamental da narrativa. As locações em paisagens bucólicas, somadas ao trabalho minucioso de enquadramento e luz, conferem à obra um caráter quase espiritual, de atmosfera arcádica. A sensação de pequenez diante do mundo natural e de profunda conexão com ele atravessa toda a trama, frequentemente simbolizada pelo posicionamento dos personagens nos terços inferiores do quadro ou em amplos planos gerais.
Outro eixo essencial da narrativa é a relação com o fogo, que evolui de elemento funcional para força simbólica ativa da história. Aquilo que inicialmente surge como aliado, responsável por aquecer, iluminar e garantir a sobrevivência, aos poucos assume um papel ameaçador, transformando-se em uma potência destrutiva capaz de consumir tudo o que antes sustentava o personagem.

Em suma, Sonhos de Trem narra, por meio da vida comum de um homem comum, as grandes transformações dos Estados Unidos: mudanças econômicas, sociais e comportamentais de um paÃs que se industrializa, entra em guerras e se urbaniza rapidamente. Seu maior mérito, no entanto, está em se tornar atemporal e profundamente identificável, ao lembrar que a vida da maioria das pessoas não é feita de grandes eventos ou momentos explosivos. A beleza, e, sobretudo, a emoção, reside justamente nos vÃnculos, na permanência e no ato de viver ao lado daqueles que se ama.
Para quem só se importa com números:
Nota- 9/10.
Ficha Técnica:
TÃtulo Original: Train Dreams
PaÃs de Origem: Estados Unidos
Roteiro: Clint Bentley, Greg Kwedar (baseado em novela de Denis Johnson)
Direção: Clint Bentley
Duração: 102 min.
Classificação: 14 anos
Elenco:
Joel Edgerton como Robert GrainierÂ
Felicity Jones como Gladys GrainierÂ
Clifton Collins Jr. como BoomerÂ
Kerry Condon como Claire ThompsonÂ
William H. Macy como Arn PeeplesÂ
Nathaniel Arcand como Ignatius JackÂ
Paul Schneider como Apostle FrankÂ
John Diehl como BillyÂ
Alfred Hsing como Fu ShengÂ
Chuck Tucker como Silent ManÂ
Rob Price como Curious LoggerÂ
Beau Charles como Young LoggerÂ
Johnny Arnoux como Kootenai IndianÂ
John Patrick Lowrie como Mr. SearsÂ
Will Patton como NarradorÂ


