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Crítica | Spider-Noir – 1ª Temporada

Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
Igor Biagioni Rodrigues
10 de set.
7 min de leitura

Atualizado: 10 de set.

“Sem poderes, sem responsabilidade”.

Por Igor Biagioni Rodrigues

Spider-Noir
"Spider-Noir" -Reprodução/Prime Video

Essa crítica não contém spoilers!


Algumas produções, quando são anunciadas, nos fazem questionar imediatamente o sentido de sua existência. Esse foi o caso de Spider-Noir, que, em um primeiro momento, parecia ser apenas mais uma produção da Sony envolvendo o Homem-Aranha e seus personagens, em uma atitude aparentemente desesperada de escalar Nicolas Cage para interpretar a versão detetivesca e noir do amigão da vizinhança, após o ator ter dado voz ao personagem no excepcional Homem-Aranha no Aranhaverso. Mas é extremamente satisfatório quando essas produções que não prometem nada acabam entregando tudo. E esse é justamente o caso da série em questão.


Criada e produzida por Phil Lord e Chris Miller, responsáveis por Homem-Aranha no Aranhaverso, Spider-Noir traz Nicolas Cage em uma nova versão live-action do universo do Homem-Aranha. Ambientada em uma Nova York alternativa dos anos 1930, a série acompanha Ben Reilly, um investigador particular que, no passado, atuava como o misterioso vigilante conhecido como O Aranha.


Após uma tragédia pessoal, Ben decide abandonar sua identidade heroica e tentar levar uma vida comum. No entanto, quando um caso extraordinário surge em seu caminho, ele é forçado a confrontar os fantasmas de seu passado e vestir novamente a máscara. Com uma atmosfera investigativa e inspirada na estética do film noir, Spider-Noir acompanha a jornada de um herói envelhecido que precisa enfrentar não apenas os perigos de uma cidade tomada pelo crime, mas também as consequências de suas próprias escolhas.


Cat Hardy Spider-Noir
Li Jun Li como Cat Hardy em "Spider-Noir" -Reprodução/Prime Video

Vivemos em uma era supersaturada de produções de super-heróis no audiovisual. E, como eu disse lá na crítica de Magnum, criticar isso se tornou tão clichê quanto as próprias obras criticadas — por mais que seja um fato. A questão, na minha humilde opinião, é que o problema está justamente nessa quantidade excessiva de produções, que acabam se tornando cada vez mais genéricas. Por isso, quando uma obra foge desse estilo padronizado, ela se torna um respiro necessário.


A ideia do Homem-Aranha noir surgiu nos quadrinhos em 2009, em uma minissérie de quatro partes, roteirizada por David Hine e Fabrice Sapolsky, com desenhos e cores de Carmine Di Giandomenico. O personagem fez sucesso, ganhou outra minissérie, e o universo noir da Marvel expandiu-se para outros personagens (Wolverine, Demolidor, Justiceiro, Luke Cage, Quarteto Fantástico e por aí vai). Posteriormente, o personagem apareceu em jogos, animações e, com o sucesso do Aranhaverso, finalmente ganhou uma versão em live-action que consegue ser tão interessante  (ou até mesmo melhor) que a versão original dos quadrinhos.


Mas, afinal, o que é o noir? Olha, vou ser sucinto, porque esse é um dos meus gêneros cinematográficos favoritos — talvez o favorito — e, sim, eu o considero um gênero, mas é melhor deixarmos essa discussão para outro momento. Eu poderia falar e escrever muito sobre o assunto. Enfim, resumindo: o noir é marcado por narrativas pessimistas e moralmente ambíguas, geralmente ambientadas em espaços urbanos dominados pelo crime, pela corrupção e pela violência. Suas histórias costumam apresentar personagens complexos, como detetives, criminosos e femmes fatales, envolvidos em situações nas quais as fronteiras entre o bem e o mal se tornam pouco definidas. Visualmente, destaca-se pelo uso expressivo de sombras, pelos contrastes entre luz e escuridão e por uma atmosfera de tensão e fatalismo.


E, ao beber dessa fonte, Spider-Noir poderia simplesmente ser uma história genérica sobre mais uma versão do Homem-Aranha, ambientada durante a década de 1930 nos Estados Unidos e envolvendo crimes, máfias e um detetive durão. Porém, a obra é uma excelente demonstração de subversão de expectativas, desde a escalação de Cage (que, convenhamos, é a melhor coisa da série) até a utilização dos personagens do universo do aracnídeo, principalmente seus vilões.


Spider-Noir
"Spider-Noir" -Reprodução/Prime Video

Mas vamos por partes e comecemos por ele: Nicolas Cage. Esta é a primeira série do ator, e que forma maravilhosa de se introduzir nesse ramo. Me desculpem, mas eu sou fã de Nicolas Cage. Acho que ele é um profissional que vive a experiência artística ao máximo. Desde a mudança de nome para se afastar da sombra Coppola, passando pelo sucesso que alcançou no início da carreira, até o desastre financeiro que o levou a aceitar todo tipo de projeto e a se sujeitar a trabalhar em algumas das produções mais abomináveis que o audiovisual já viu, chegando à sua superação desse período (como demonstrado em O Peso do Talento), Cage possui uma trajetória absolutamente peculiar.

Isso sem contar sua megalomania de atuar no maior número possível de produções, buscando se aproximar dos grandes astros da Era de Ouro de Hollywood, que possuíam filmografias extensas, com mais de 150 filmes, por exemplo. Sua paixão pelo cinema mudo, principalmente pelo Expressionismo Alemão — te entendo demais, Nicolas! — faz com que suas atuações sejam caricatas, remetendo a um cinema que dependia profundamente da expressão visual. E isso sem mencionar sua paixão pelos quadrinhos de super-heróis: a compra de edições históricas, a mudança de nome (afinal, Cage vem de onde, hein?) e até o nome de seu filho, Kal-El.


Convenhamos: Nicolas Cage é uma pessoa excêntrica, e a produção sabe disso. Por isso, dá espaço para que o ator utilize toda a sua excentricidade para entregar uma atuação que passeia por referências que vão de Humphrey Bogart ao Pernalonga. Em determinado momento, Cage afirmou que interpretava “uma aranha interpretando um ser humano”, e essa definição faz muito sentido dentro da série. O resultado são momentos cômicos excelentes, mas também sequências dramáticas no mesmo nível.


Além disso, é possível comparar toda essa trajetória pessoal e profissional de Cage com a do próprio personagem, fazendo com que a construção adquira um caráter quase metalinguístico. Isso sem contar a maneira como a narrativa se molda em torno da persona de Ben Reilly (ou Peter Parker, se você prestar bastante atenção). A trama é um emaranhado de situações, casos e mistérios que parecem formar uma teia, desculpem o trocadilho, e que vão se desenrolando à medida que novos personagens e acontecimentos surgem, mas permanecem, de alguma forma, sempre ligados a Ben Reilly.


Mas o destaque das atuações não para por aí. Os personagens secundários de Spider-Noir poderiam facilmente se limitar a arquétipos típicos do gênero. Robbie (Lamorne Morris), por exemplo, começa como o repórter investigativo e confidente de Ben Reilly, enquanto Cat Hardy (Li Jun Li) poderia ser apenas mais uma femme fatale inserida na narrativa,  Janet Ruiz (Karen Rodriguez) poderia ser só um acessório narrativo referenciando uma personagem de O Falcão Maltês (1941). No entanto, a série demonstra interesse em desenvolvê-los para além dessas funções, concedendo-lhes arcos próprios que interferem diretamente na trama e na relação com o protagonista. O mesmo acontece, em diferentes níveis, com os antagonistas, que evitam ser apenas obstáculos genéricos para o herói. Embora nem todos recebam o mesmo aprofundamento, o conjunto contribui para que Spider-Noir utilize os arquétipos tradicionais do noir sem se tornar completamente refém deles.


Spider-Noir
"Spider-Noir" -Reprodução/Prime Video

A narrativa é interessante e me faz querer comentar justamente sobre o fatalismo presente nas obras noir, que não é diferente aqui. No artigo “From Sherlock Holmes to the Hard-Boiled Detective in Film Noir”, Jerold J. Abrams afirma que, no film noir, o espaço narrativo pode ser compreendido a partir da imagem de um labirinto. Conforme Abrams (2006), diferentemente das narrativas clássicas de detetive, nas quais o labirinto do mistério pode ser percorrido até a descoberta de uma solução, o universo noir caracteriza-se pela ausência de uma saída definitiva. Ainda que o investigador consiga solucionar determinado crime, a resolução do caso não é suficiente para eliminar a corrupção, a violência e as ambiguidades que estruturam o mundo no qual está inserido.


Essa imagem pode ser aproximada da noção de rizoma desenvolvida por Deleuze e Guattari (1995). Diferentemente de uma estrutura hierárquica e linear, o rizoma é caracterizado por múltiplas conexões, direções e possibilidades de percurso. Aplicada ao noir, essa perspectiva permite compreender seu universo como uma rede complexa de relações, na qual os acontecimentos não conduzem necessariamente a uma origem única ou a uma resolução definitiva. O detetive percorre diferentes caminhos, segue pistas e estabelece conexões, mas permanece inserido em uma realidade cuja complexidade não pode ser completamente dominada.


Desse modo, o labirinto noir não representa apenas um enigma a ser solucionado, mas um mundo marcado pela multiplicidade, pela instabilidade e pela ausência de uma ordem plenamente restaurável. A investigação pode esclarecer parte dos acontecimentos, mas não permite que o personagem escape definitivamente do universo de violência, corrupção e ambiguidade no qual está situado. Talvez o labirinto de Spider-Noir seja mais maneirista, mas mesmo assim... é um labirinto. 


spider noir
Cenas de "Spider-Noir"/Reprodução/Prime Video
A Dama de Shanghai
Cenas de "A Dama de Shanghai" (1947)

Vamos tirar o elefante da sala. Sim, me refiro à decisão da Amazon de oferecer duas opções para assistir à série (criando, de certa forma, uma terceira: a alternância entre ambas). Acredito que este seja o único aspecto negativo da obra, uma vez que, ao entregar essa opção ao espectador, a decisão acaba retirando parte do poder criativo dos realizadores.


Pensa comigo: quando o noir surgiu, entre as décadas de 1940 e 1950, já existia a possibilidade de produzir filmes em cores. Muitas produções, no entanto, eram realizadas em preto e branco por questões orçamentárias. Essa limitação acabou contribuindo para a construção de uma composição estética, estilística e visual muito particular, baseada no contraste entre preto e branco, na iluminação low-key e no uso expressivo da luz e das sombras, elementos que marcariam profundamente a história do cinema.


Atualmente, o preto e branco não é utilizado por falta de orçamento, mas como uma escolha estética, o que o transforma essencialmente em uma questão de linguagem. Na série, por mais que a fotografia em preto e branco às vezes pareça um pouco lavada, ou seja, sem tanto contraste, existem diversos momentos de excelente uso criativo de luz e sombra e planos belíssimos. Além disso, a versão True-Hue Full Color, com suas cores vibrantes e uma ambientação que emula a pintura de filmes clássicos, também se mostra bastante interessante, até fazendo referências a cenas canônicas do cinem noir e outras produções que também bebem do gênero.


Assisti à série em preto e branco e vi algumas cenas na versão colorida. Ambas apresentam um trabalho interessante. No fim das contas, essa é apenas uma ponderação pessoal diante da decisão de oferecer diferentes formas de assistir à mesma produção e me fazer ponderar naquilo que muito de vocês amam: a nota.


Spider-Noir
"Spider-Noir" - Reprodução/ Prime Video

Batman a Série Animada
Batman: The Animated Series - Reprodução/Warner Bros.

Em suma, Spider-Noir é uma grande produção que, assim como o detetive fracassado Ben Reilly queria não ter poderes para não ter responsabilidades, aparentemente não tinha responsabilidade nenhuma. Ainda assim, mostrou ter muito poder, entregando uma das melhores produções de super-heróis do audiovisual dos últimos anos!


Para quem só se importa com números:

Nota - 9/10.


Ficha Técnica:

Título Original: Spider-Noir

País de Origem: Estados Unidos

Desenvolvimento: Oren Uziel

Direção: Harry Bradbeer, Nzingha Stewart, Alethea Jones, Greg Yaitanes

Roteiro: Oren Uziel, Christopher Chen, Megan Liao, Steve Lightfoot, Tori Sampson, Jennifer Frazin, Jack Henderson, Bruce Marshall Romans

Classificação: 16 anos.

Duração: 370 min. (oito episódios)


Elenco:

Nicolas Cage

Lamorne Morris

Li Jun Li

Karen Rodriguez

Brendan Gleeson

Abraham Popoola

Jack Huston

Andrew Lewis Caldwell

Amanda Schull

Lukas Haas

Cary Christopher

Michael Kostroff

Scott MacArthur

Joe Massingill

Richard Robichaux

Amy Aquino

Andrew Robinson

Jack Mikesell

Cameron Britton

Whitney Rice

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