Crítica | Homem-Aranha: Um Novo Dia (2026)
- Igor Biagioni Rodrigues

- há 5 horas
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Atualizado: há 2 horas
“Você é Peter Parker ou o Homem-Aranha?”
Por Igor Biagioni Rodrigues

Sem spoilers!
Há dez anos, no já longínquo ano de 2016, o Homem-Aranha interpretado por Tom Holland fez sua estreia no MCU em Capitão América: Guerra Civil. O caminho ao longo da década foi longo e cheio de percalços, mas finalmente essa versão do herói ganhou um longa realmente decente. A pergunta que fica, porém, é: se tudo isso foi uma correção de rota para decisões equivocadas da própria Marvel, qual é o verdadeiro mérito nisso?
Homem-Aranha: Um Novo Dia acompanha Peter Parker após os eventos de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa. Agora vivendo anonimamente em Nova York, depois que sua existência foi apagada da memória de todos, o jovem tenta reconstruir sua vida enquanto divide seu tempo entre a universidade e a responsabilidade de proteger a cidade como Homem-Aranha. Isolado de seus antigos amigos e obrigado a enfrentar seus desafios sem o apoio de quem ama, Peter lida com sentimentos de solidão e deslocamento enquanto observa as pessoas ao seu redor seguirem em frente.
No entanto, uma nova ameaça coloca Nova York em risco, forçando o herói a enfrentar adversários cada vez mais perigosos e a tomar decisões capazes de desafiar seus princípios. Em meio a perdas, recomeços e sacrifícios, Peter embarca em uma jornada de autodescoberta que o levará a questionar até onde está disposto a ir para fazer o que é certo, reafirmando a máxima que sempre definiu o personagem: grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

O Homem-Aranha de Tom Holland sempre esteve cercado por figuras que, de certa forma, desequilibravam a narrativa em seu desfavor. Primeiro foi o Homem de Ferro, depois o Doutor Estranho e, eventualmente, até outras versões do próprio Homem-Aranha. Embora esses encontros fossem divertidos, muitas vezes davam a sensação de que Peter Parker era um coadjuvante em sua própria história. Aqui, finalmente, isso muda. Personagens como o Justiceiro (Jon Bernthal) e o Hulk (Mark Ruffalo) aparecem ao longo da trama, mas suas participações possuem função narrativa clara e não parecem simples inserções para agradar fãs ou expandir artificialmente o MCU.
Evidentemente, eles são, sim, um elo mais fraco do filme; porém, ajudam a reforçar a dimensão desse universo compartilhado e o fazem de maneira relativamente orgânica, contribuindo para a sensação de que as engrenagens da Marvel continuam girando sem que isso retire o protagonismo de Peter.
Homem-Aranha: Um Novo Dia é um filme com cara de quadrinhos. E isso é um elogio dos maiores. Talvez seja a obra, dentro do MCU, que melhor compreenda o que torna o Homem-Aranha um personagem tão cativante há mais de seis décadas, ou seja, a combinação entre seu heroísmo espetacular e problemas profundamente humanos.

Os primeiros 30 ou 40 minutos são particularmente divertidos para quem acompanha as HQs e as diversas fases do personagem ao longo de todos esses anos de existência. O filme está repleto de referências visuais muito interessantes a capas clássicas dos quadrinhos (Amazing Fantasy #15, Amazing Spider-Man #134, Amazing Spider-Man #221 e Amazing Spider-Man #345), além da presença de alguns daqueles vilões menores e outros personagens que sempre povoaram as páginas dos quadrinhos do Cabeça de Teia (Escorpião, Tarântula, Bumerangue, Lápide, Cabeça de Martelo e Jean DeWolff). Há também momentos icônicos capazes de fazer os fãs de longa data do Amigão da Vizinhança e da Casa das Ideias apontarem para a tela com um leve sorriso. Sim, estou falando da cena do Justiceiro com o Homem-Aranha, que remete diretamente a uma famosa página de Guerra Civil #5, de 2006. Não bastasse isso, o uniforme remete não apenas aos usados por Tobey Maguire e Andrew Garfield, mas também ao clássico traje criado por Steve Ditko.
Outro grande acerto está na direção de Destin Daniel Cretton (Magnum e Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis). As cenas de ação são extremamente bem coreografadas, dinâmicas e criativas, aproveitando com inteligência a movimentação do personagem pelos cenários urbanos. Há também uma presença considerável de efeitos práticos, algo cada vez mais raro em blockbusters de super-heróis contemporâneos, que ajuda a conferir mais peso e impacto aos confrontos. Nesse sentido, Nova York volta a assumir um papel interessante na narrativa. Os constantes deslocamentos pelos bairros, ruas e arranha-céus evocam diretamente a experiência dos jogos da Insomniac, transmitindo a sensação de que Peter realmente pertence àquele espaço que definiu o personagem e também foi fundamental para seu sucesso no início dos anos 1960, diferentemente dessas grandes aventuras espaciais que, até mesmo nos quadrinhos, muitas vezes pareciam existir apenas pela força da marca que o personagem carrega.

Mas o aspecto mais interessante do filme é seu amadurecimento emocional. Este talvez seja o longa mais sentimental da versão de Tom Holland, explorando com mais profundidade a dualidade entre Peter Parker e o Homem-Aranha. A narrativa trabalha de forma convincente como as responsabilidades heroicas afetam sua vida pessoal e como seus conflitos psicológicos acabam se manifestando até mesmo em seus poderes. A solidão, o luto e a dificuldade de seguir em frente tornam-se elementos centrais da construção do personagem, refletindo um momento de transição importante em sua trajetória.
Esse amadurecimento também se beneficia do fato de que, finalmente, Tom Holland consegue se desvincular das relações que por tanto tempo limitaram o crescimento de sua versão do herói. Sem depender constantemente de mentores ou figuras mais experientes para conduzir sua jornada, Peter assume o protagonismo de sua própria história e passa a enfrentar desafios que exigem crescimento genuíno e um verdadeiro desenvolvimento do personagem. É um passo importante para consolidá-lo como o Homem-Aranha que muitos esperavam ver desde sua estreia.
A presença de Sadie Sink é outro destaque. Seu desempenho é excelente e demonstra mais um acerto de casting da Marvel. Sua atuação contribui significativamente para a carga emocional da narrativa e para os conflitos centrais do filme. Convenhamos: ela sempre se destacou em Stranger Things.
A trilha sonora de Michael Giacchino também merece elogios. Diferentemente dos filmes anteriores, que apostavam em composições mais grandiosas e expansivas, aqui o trabalho musical é mais contido e introspectivo, refletindo diretamente o estado emocional do protagonista. A música acompanha o momento de Peter, ou seja, um personagem mais isolado, vulnerável e em busca de reconstrução.

Nem tudo funciona, porém. O filme apresenta alguns problemas de ritmo e de tom, especialmente na maneira como administra o humor. Em vários momentos, a narrativa aborda temas pesados como solidão, luto, depressão e a relação de Peter com a MJ de Zendaya, mas interrompe a construção dramática com piadas colocadas de forma pouco natural. Outro ponto a ser levantado é o Justiceiro. Por mais que a química entre o Aranha de Tom Holland e o Frank Castle de Bernthal seja divertida, a presença e a atuação do personagem causam certa estranheza. Essa sensação se deve à classificação indicativa do longa, que impõe algumas limitações ao tratamento de determinados temas e ações do personagem, suavizando aspectos que poderiam gerar conflitos mais interessantes.
Além disso, a trama ocasionalmente se prolonga além do necessário. Há sequências que poderiam ser mais enxutas, alguns cortes mal posicionados e decisões narrativas que enfraquecem o impacto de determinados momentos. Soma-se a isso o fato de que, por mais que tente se afastar de um contexto maior, ainda é um filme muito dependente dos anteriores, utilizando flashbacks para forçar sentimentos e revelar determinadas informações.
Ainda assim, é válido destacar que os acertos superam os tropeços. A construção dessa nova fase do personagem é genuinamente interessante e encontra um reflexo eficiente na própria antagonista, criando um paralelo temático que fortalece a jornada de Peter.

Em suma, Homem-Aranha: Um Novo Dia consegue algo que os filmes anteriores de Tom Holland raramente alcançaram por completo, fazer com que Peter Parker seja, finalmente, o verdadeiro centro de sua própria história. É uma aventura que abraça sem vergonha suas origens nos quadrinhos, entende a importância de Nova York para a mitologia do personagem e, acima de tudo, permite que o Homem-Aranha de Tom Holland cresça. Pode não ser perfeito, mas é um passo importante para um herói que, por muito tempo, parecia viver à sombra de todos ao seu redor e marca, sim, um recomeço... ou melhor, um novo dia na vida do nosso super-herói favorito.
Para quem só se importa com números:
Nota - 7/10.
Ficha Técnica:
Título Original: Spider-Man: Brand New Day
País de Origem: Estados Unidos
Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers
Direção: Destin Daniel Cretton
Duração: 144 min.
Classificação: 12 anos
Elenco:
Tom Holland
Zendaya
Sadie Sink
Jacob Batalon
Jon Bernthal
Tramell Tillman
Michael Mando
Mark Ruffalo
Liza Colón-Zayas
Marvin "Krondon" Jones III
Zabryna Guevara
Billy Clements
Florence Pugh
Marisa Tomei
Jamaal Burcher
Eman Esfandi
Ian Chane
Vivien Keene
Kurtis Lowe
Leah Phillips
Keith David
Naomi Watts






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