Crítica | Stranger Things – 5ª Temporada (2025)
- Igor Biagioni Rodrigues

- 8 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 8 de jan.
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Por Igor Biagioni Rodrigues.

Contém spoilers!
Após aproximadamente dez anos e cinco temporadas (sim… dez anos), a série carro-chefe da Netflix chegou à sua derradeira temporada. Mas, afinal, o desfecho foi digno de toda essa jornada? Para mim, a resposta é mais complexa do que um simples “sim” ou “não”.
Stranger Things estreou em 2016 e, na época, ninguém; nem mesmo os irmãos Duffer ou a própria Netflix; imaginava o sucesso e o impacto que a série teria, não apenas no streaming, mas na cultura pop como um todo. Isso fica evidente ao observarmos seu encerramento e a progressão das temporadas, que deixaram de ser intimistas para crescerem de maneira cada vez mais inflada. Na quinta temporada, em especial, os irmãos Duffer parecem confundir encerramento com saturação.
É claro que a série não foi planejada para durar tanto. Nesta última temporada, Stranger Things se distancia de seu escopo inicial: um mistério em uma cidade pequena, fortemente inspirado no terror oitentista, com uma criação de mundo pautada nostalgia e, acima de tudo, por uma narrativa sobre amizade e a transição da infância para a vida adulta.

Convenhamos: Stranger Things nunca foi brilhante, mas sempre foi estilosa e extremamente divertida de acompanhar. Sua narrativa frequentemente se repetia, mas seu verdadeiro brilho, para além do apelo nostálgico, estava nas temáticas e, principalmente, em seus personagens cativantes.
A série começou de forma mais contida, misturando ficção científica e terror, sendo este último uma metáfora para questões bastante interessantes. A falta de comunicação na terceira temporada, o luto na quarta; em todos esses momentos ficava claro que o verdadeiro terror não eram os monstros, mas o fato de crianças não poderem ser crianças em um mundo repleto de coisas estranhas. Esse sempre foi o grande potencial da série. No entanto, na quinta temporada, ela se rende à própria megalomania: muitos núcleos, personagens demais e, claro, o fim do mundo.
Não me entendam mal: esta não é uma temporada totalmente ruim. O primeiro volume termina de forma genuinamente empolgante e entrega um dos momentos mais belos de toda a série. A relação construída entre Will (Noah Schnapp) e Robin (Maya Hawke) é sensível e muito bem desenvolvida, culminando em uma cena poderosa em que Will se aceita, compreende quem é e, literal e simbolicamente, desperta seus poderes para derrotar os demogorgons e salvar os amigos. Há ali um subtexto importante e bem trabalhado.
Além disso, os quatro primeiros episódios permanecem fechados em Hawkins, com proporções menores e foco na cidade, o que resgata a essência da série. Soma-se a isso a introdução de ótimas surpresas, como o garoto Derek, interpretado por Jake Connelly de maneira carismática e afetuosa, e o maior destaque dado a Holly (Nell Fisher), cuja presença evoca aquele senso pueril e inocente dos primeiros anos de Stranger Things. Talvez seja justamente por isso que essas crianças funcionem tão bem: elas recuperam algo que a série perdeu ao longo do tempo.

Essa demora de quase uma década para contar apenas um recorte da vida desses personagens claramente não foi bem pensada. O elenco principal cresceu, e isso é evidente. Eles já não são crianças, nem adolescentes, mas jovens adultos interpretando adolescentes, muitas vezes se curvando fisicamente para parecerem menores, o que se torna visualmente estranho e até incômodo. Ainda assim, outro ponto positivo do primeiro volume é o retorno ao terror mais intimista, como as cenas do demogorgon na casa dos Wheeler ou todo o plano elaborado para capturá-lo. Em contrapartida, o núcleo de Eleven e Hopper continua sendo o mais desinteressante da série, parecendo pertencer a outra produção completamente diferente.
Os problemas se intensificam, porém, no segundo volume. A divisão da temporada em partes claramente faz parte de uma estratégia da Netflix para manter a série em evidência por mais tempo, e é um caminho interessante entre episódios semanais e lançamento direto (algo interessante de se analisar, inclusive, como reflexo da própria evolução do streaming, mas isso fica para outro texto em um outro momento). O fato é que terminamos o primeiro volume empolgados, especialmente com o arco de Will, apenas para levar um banho de água fria na continuação.
O roteiro passa a se preocupar mais em mexer nas engrenagens da mitologia do universo do que em desenvolver seus personagens. Não há sensação real de perigo, os momentos dramáticos não têm peso e parecem cumprir apenas um checklist narrativo. Exemplos não faltam: Will se assumindo para todos de maneira abrupta e inconveniente, desperdiçando o momento emocional mais impactante da série; a briga e rápida resolução entre Dustin e Steve; o fim do relacionamento de Nancy e Jonathan; e o retorno completamente desnecessário de Kali, cuja função se resume a gritar em cena que ela e a Eleven devem se sacrificar.
Alguns desses momentos são tão confusos, como o término de Nancy e Jonathan ou a suposta compreensão de Mike sobre os sentimentos de Will, que os próprios irmãos Duffer precisaram vir a público explicar o que aconteceu. Soma-se a isso diálogos excessivamente expositivos, personagens verbalizando o que sentem e o que o público deveria sentir, planos explicados com objetos a todo momento e mudanças arbitrárias em regras e elementos já estabelecidos. Tudo isso transmite uma clara desconfiança por parte da produção na capacidade intelectual do espectador.
Os três episódios do segundo volume repetem a mesma estrutura, giram em círculos e avançam do nada para lugar nenhum, na velocidade de um cágado manco com artrose, deixando uma quantidade absurda de questões para serem resolvidas em um último e gigantesco episódio.

E o último episódio não decepciona, ao menos na ruindade. A batalha final vai por um caminho totalmente distante de tudo que a série já fez, se transformando em uma espécie de batalha de série tokusatsu (Expressão japonesa que designa produções audiovisuais, filmes e séries, marcadas pelo uso intenso de efeitos especiais, incluindo obras live-action com kaiju, super-heróis como Kamen Rider, Ultraman e Super Sentai, robôs gigantes e elementos de fantasia, combinando efeitos práticos, ou seja, fantasias, miniaturas e maquetes, com computação gráfica), repleta de mortes falsas interrompidas por telas pretas que funcionam como cortes de comerciais que nunca vêm (afinal, estamos em um serviço de streaming). A montagem é apressada, com cenas curtas e fragmentadas que parecem pensadas para virar clipes em uma certa rede social de vídeos verticais.
A origem de Vecna/Henry, por sua vez, faz uma alusão direta a uma peça de teatro, numa tentativa pífia de criar um movimento transmídia que, no fim das contas, não gera impacto algum. Soma-se a isso o uso insistente de flashbacks como atalho emocional, além de um final propositalmente dúbio para Eleven, claramente pensado para alimentar a indústria do hype e das teorias na internet. Isso tudo sem entrar nos inúmeros erros de roteiro e continuidade que simplesmente não caberiam nesta crítica.
No entanto, é curioso como, aos quarenta e cinco do segundo tempo, Stranger Things finalmente reencontra sua alma. O epílogo é bonito, sentimental e funciona como um respiro após toda essa convulsão narrativa desnecessária. Joyce e Hopper finalmente tendo seu encontro; os personagens mais velhos conversando no topo da rádio, compartilhando suas vidas e marcando de se reencontrarem não apenas pela saudade da amizade, mas como uma espécie de reconexão consigo mesmos; e, por fim, Mike, Will, Dustin, Lucas e Max que, após se formarem (com Dustin honrando tudo o que Eddie prometera e sonhara), retornam ao porão para jogar uma última campanha.

É nesse momento que Stranger Things recupera seu brilho. Jovens sendo jovens, usando Dungeons & Dragons como ferramenta para compreender os estranhos e, muitas vezes, assustadores mistérios da vida adulta. E aqui, permitam-me ser um pouco pessoal: RPG é uma experiência que acredito que todos deveriam viver. Assim como os protagonistas da série, foi no RPG que conheci amigos fundamentais para minha vida; foi ali que aprendi novas formas de enxergar o mundo, e o RPG não funcionava apenas como válvula de escape, mas também como espaço para viver momentos verdadeiramente significativos ao lado de pessoas que amo.
Jogar D&D ou qualquer outro sistema de RPG sempre será divertido, mas nunca será como naquela época. E é exatamente isso que a cena final de Stranger Things comunica: amigos compartilhando um último momento juntos antes da chegada definitiva da vida adulta, se divertindo e se despedindo daqueles mundos imaginários. É a infância ficando para trás, uma porta que se fecha e um bastão que é passado adiante.
Apesar de todos os seus percalços, é esse sentimento que Stranger Things entrega em seu encerramento. A aventura acabou, o mundo mudou, nós mudamos, e nem mesmo uma série construída sobre nostalgia pode viver eternamente do passado.
Para quem só se importa com números:
Nota- 6/10.
Ficha Técnica:
País de Origem: Estados Unidos
Showrunners: Matt Duffer, Ross Duffer (Irmãos Duffer)
Roteiro: Matt Duffer, Ross Duffer, Curtis Gwinn, Kate Trefry, Paul Dichter, Caitlin Schneiderhan
Direção: Matt Duffer, Ross Duffer, Frank Darabont, Shawn Levy,
Classificação: 16 anos
Duração: 620 minutos (8 episódios).
Elenco:
Winona Ryder como Joyce Byers
David Harbour como Jim Hopper
Finn Wolfhard como Mike Wheeler
Millie Bobby Brown como Eleven / Jane Hopper
Gaten Matarazzo como Dustin Henderson
Caleb McLaughlin como Lucas Sinclair
Natalia Dyer como Nancy Wheeler
Charlie Heaton como Jonathan Byers
Noah Schnapp como Will Byers
Joe Keery como Steve Harrington
Sadie Sink como Max Mayfield
Brett Gelman como Murray Bauman
Priah Ferguson como Erica Sinclair
Linda Hamilton como personagem não revelada
Cara Buono como Karen Wheeler
Jamie Campbell Bower como Vecna / Henry Creel
Linda Hamilton como Dra. Kay
Jake Connelly como Derek Turnbow
Nell Fisher como Holly Wheeler






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