Melhores quadrinhos lidos em 2025!
- desenhandorecordat

- 31 de dez. de 2025
- 30 min de leitura
Atualizado: 6 de jan.
Nosso 2025 em quadrinhos! As melhores leituras do ano!
Por: Iuri e Igor Biagioni Rodrigues

Seguindo a tradição iniciada logo no primeiro ano de existência deste singelo site, apresentamos a lista com os melhores quadrinhos que lemos em 2025, acompanhada de breves comentários (às vezes, não tão breves hehe) sobre cada HQ. Vale lembrar que as HQs listadas não foram necessariamente publicadas neste ano. Além disso, a lista não segue uma ordem de preferência.
Sem mais delongas, vejamos quais foram as melhores histórias em quadrinhos lidas em 2025!
Lista 1: Por Iuri Biagioni Rodrigues - ordem cronológica de leitura
1 - Omnibus Homem-Animal por Grant Morrison - de Grant Morrison (roteiro), Chas Truog, Tom Grummett, Paris Cullins (desenhos), Doug Hazlewood, Mark McKenna, Steve Montano, Marker Farmer (arte-final), Tatjana Wood, Helen Vesik (cores) - EUA, 1988 - 1990 - Editora no Brasil:Panini (2021).

Breve comentário: Homem-Animal foi o primeiro trabalho de Grant Morrison para a DC e o início de seu sucesso no gênero da superaventura. O personagem era (e ainda é) de baixo escalão da DC; portanto, Morrison teve mais liberdade criativa do que teria se tivesse escrito um dos medalhões da editora e, caso a série fosse fracassada, a DC teria apostado em um herói pouco conhecido, evitando maiores problemas. Contudo, Morrison reinventou o Homem-Animal e criou uma das melhores revistas de super-heróis vistas até então. As histórias abordaram temas pouco trabalhados até aquele momento, como uso de animais em experimentos científicos, direitos dos animais, vegetarianismo (Homem-Animal passou a ser vegetariano e defensor da causa, assim como Morrison), ecologia, drogas e metalinguagem (quebra da quarta parede e diálogo entre o protagonista e “o Escritor”, que na verdade, é Grant Morrison aparecendo na história). Há ótimas participações especiais de outros heróis do Universo DC também.
Embora a equipe de artistas composta por Chas Truog, Tom Grummett, Paris Cullins(desenhos), Doug Hazlewood, Mark McKenna, Steve Montano, Marker Farmer (arte-final), Tatjana Wood e Helen Vesik (cores) não esteja na lista de grandes nomes dos quadrinhos, ela realiza um trabalho extremamente competente, criando ótimas sequências de vinhetas, layouts de página e, principalmente, dando vida às “pirações” e à criatividade do roteiro de Morrison. É uma leitura excelente! Recomendo para todo mundo, seja fã de super-heróis ou não.
2 - A Cegueira Iminente de Billie Scott - de Zoe Thorogood (roteiro, arte e cores) - Inglaterra, 2020 - Editora no Brasil: Conrad (2023)

Breve comentário: A Cegueira Iminente de Billie Scott é a primeira graphic novel da britânica Zoe Thorogood e foi uma ótima estreia! A história é fictícia, mas possui elementos inspirados na vida da própria autora. A obra conta a trajetória de Billie Scott, uma jovem artista reclusa que descobre que está prestes a perder a visão justamente quando é selecionada para exibir suas pinturas em uma renomada galeria de arte. Assim, ela precisa correr contra o tempo e produzir dez quadros para a exposição. Para isso, decide deixar a república onde vive e partir em uma jornada artística. Contudo, começa a lidar com uma crise de criatividade e com o sentimento de não ser boa o suficiente.
Ao longo da história, Billie conhece uma série de personagens que também estão passando por dificuldades na vida, e sua relação com eles tem altos e baixos. Além disso, conforme os coadjuvantes vão conhecendo a protagonista, nós também a conhecemos. A construção da narrativa depende muito da interação entre os personagens, e todos são bem desenvolvidos, adicionando algo à história e à vida de Billie. Um acerto da obra é não tratar a cegueira como um drama de resiliência e superação; pelo contrário, Billie ficará cega, e isso não pode ser evitado.
Desse modo, o foco da obra está nas situações inesperadas vividas por Billie, no modo como ela enfrenta as adversidades, nas consequências de suas escolhas e em sua jornada de autoconhecimento e amadurecimento. Outros pontos positivos são a qualidade dos diálogos, a narrativa fluida, as reflexões sobre o fazer artístico, a representatividade étnica e LGBTQIAPN+ e o ótimo trabalho de arte de Zoe. Os traços estilizados, bem detalhados e dinâmicos, juntamente com o formato e a disposição dos quadros, somados à paleta de cores, funcionam muito bem no contexto da história.
3 - Coleção Clássica Marvel: Thor (10 volumes) - de Stan Lee (argumento e roteiro), Larry Lieber (argumento e roteiro), Jack Kirby (argumento e desenhos), Don Heck, Joe Sinnott e Carl Hubbell (desenhos e arte-final), Dick Ayers, George Roussos, Chic Stone, Paul Reinman,Vince Colletta, Frank Giacoia e Sam Rosen (arte-final) e Robert Bernstein (roteiro) - EUA, 1963-1967 - Editora no Brasil Panini (2021-2023)

Breve comentário: Thor é meu super-herói preferido da Marvel, e ler suas histórias clássicas em ordem cronológica foi uma ótima experiência! Em dez volumes, acompanhamos as aventuras dos quatro primeiros anos de existência do deus do trovão. Aos olhos de hoje, várias dessas histórias podem parecer bobas, mas elas devem ser lidas pensando no contexto e na época em que foram escritas, evitando anacronismos na interpretação e na análise do estilo de narrativa dos anos 1960.
É muito interessante acompanhar a evolução do personagem, do estilo das histórias e o amadurecimento dos argumentos e roteiros de Stan Lee e dos argumentos e desenhos de Jack Kirby (os principais artistas envolvidos). Inicialmente, as tramas eram mais próximas do estilo de ficção científica e episódicas, ou seja, contidas em si mesmas, sem continuidade nos outros números. Além disso, Thor enfrentava invasões alienígenas, inimigos vietnamitas, chineses e soviéticos (ah, a Guerra Fria nos quadrinhos de super-heróis!) e vilões como Cobra e Mister Hyde. O único adversário da mitologia era seu meio-irmão Loki, que também foi responsável por conceder poderes ao criminoso Crusher Creel, o Homem Absorvente. Outro aspecto marcante era o relacionamento conturbado entre o doutor Donald Blake, identidade secreta de Thor, e a enfermeira Jane Foster.
Aos poucos, as histórias passaram a ser compostas por arcos, e elementos e personagens vindos de Asgard e da mitologia greco-romana começam a surgir, como as pedras nornes, Encantor, Executor, Destruidor, Hulik, Sif, Plutão e Hércules, aliado de Thor. Vemos também a primeira aparição de Ego, o Planeta Vivo. Certamente, "Os Contos de Asgard", histórias curtas de 5 páginas nas quais Lee e Kirby imaginam os mitos nórdicos à sua maneira, são o ápice dessa fase. A dupla criou histórias muito divertidas e personagens marcantes como Frandall, Hogun e Volstagg, os Três Guerreiros. A arte de Kirby estava no auge, criando batalhas épicas e belos cenários.
4 - Dreadstar: O Princípio e Dreadstar vol. 1 - de Jim Starlin (roteiro, arte e cores), Glynis Wein, Daina Grazuinas e Christie Scheele (cores) - EUA, 1980 - 1982 e 1982-1984 - Editora no Brasil: Mythos (2017 e 2016).

Breve comentário:
Jim Starlin é um grande criador de sagas cósmicas, e com Dreadstar não seria diferente. Trata-se de um dos melhores trabalhos deste grande nome dos quadrinhos. O encadernado intitulado “O Princípio” contém 3 histórias fechadas: A Odisseia da Metamorfose, “O Preço” e “Uma Saga Cósmica”, que narram as primeiras aventuras nesse universo. Já o encadernado Dreadstar Vol. 1 reúne os 12 primeiros números da revista mensal do personagem.
Em “O Princípio”, somos apresentados ao universo da série e acompanhamos a destruição da Via Láctea arquitetada por Aknaton, o último sobrevivente da raça dos Orsirosiano, com o auxílio de Dreadstar e de outros três personagens. A trama é motivada pelos avanços militares da raça alienígena dos Zygoteanos e mostra como os protagonistas foram parar milhões de anos no futuro, em um novo mundo. Em seguida, acompanhamos a origem de Syzygy Darklock, um futuro aliado do protagonista. Por fim, vemos como o personagem-título se estabeleceu no planeta Caldor.
Nas 12 edições da série principal, acompanhamos os esforços de Vanth Dreadstar e seus aliados para colocar um fim à guerra entre a Monarquia, um governo autoritário que utiliza o medo e a violência para controlar a população, e a Igreja da Instrumentalidade, uma instituição religiosa manipuladora e fundamentalista que utiliza métodos de inquisição para manter o controle.
A obra de Starlin é repleta de metáforas, analogias, críticas sociais (especialmente à corrupção moral das instituições de poder) e referências à mitologia egípcia e religião. A trama é envolvente e a arte é espetacular, contando com splash pages de tirar o fôlego, belos cenários, ótimas cenas de luta e uma excelente sensação de movimento, além de muita criatividade no formato e na disposição dos quadros. Enfim, é uma leitura indispensável.
5 - Monstros - de Barry Windsor-Smith (roteiro e arte) - EUA, 2021 - Editora no Brasil: Todavia (2022)

Breve comentário:
Monstros é a obra-prima de Barry Windsor-Smith e demorou 37 anos para ficar pronta! O projeto começou nos anos 1980 e, inicialmente, seria uma história curta do Hulk que abordaria questões como abuso infantil, mas a Marvel a vetou. Tempo depois, Bill Mantlo surrupiou essa ideia e criou uma história para o Gigante Esmeralda inspirada nela. BWS não gostou nada disso e continuou com os planos de lançar sua própria obra, produzida com muito esmero.
A trama gira em torno da figura de Bobby Bailey (cuja aliteração no nome remete a Bruce Banner), um jovem que passou parte da infância apenas com a mãe. Após o retorno de seu pai, um militar que lutou na 2ª Guerra Mundial, testemunhou verdadeiros horrores e perdeu a sanidade; Bobby passou a ser agredido constantemente por ele. Anos mais tarde, o jovem decide se alistar em um experimento do exército e acaba virando um monstro no sentido literal da palavra; contudo, sua trajetória de vida é marcada por monstros no sentido figurado: homens que representam o que há de pior na humanidade. Monstros é uma história triste, densa, pesada e impactante, mas, ao mesmo tempo, emocionante e bonita.
A narrativa não é linear, transitando por vários momentos da vida de Bobby e de sua família, mas sem se tornar confusa. Pelo contrário: as mudanças de época nos ajudam a compreender melhor a história e os personagens, pois tudo se conecta perfeitamente. A trama envolve abuso infantil, violência, nazismo, traumas, críticas sociais, crenças religiosas, ação, referências a quadrinhos e teorias conspiratórias.
A arte de BWS é um espetáculo à parte. Ele utiliza uma infinidade de hachuras com extrema maestria, possui um domínio invejável de luz e sombra, cria cenários detalhados e capricha na representação das expressões faciais e dos sentimentos. Além disso, suas composições de páginas e o controle do ritmo de leitura entre texto e imagem são excelentes. Com certeza, é um dos melhores quadrinhos que li na vida!
6 - Manual do Minotauro - de Laerte (roteiro, arte e cores) - Brasil, Quadrinhos na Cia. (2021)

Breve comentário: Laerte é um dos maiores nomes dos quadrinhos nacionais, e o encadernado Manual do Minotauro é um ótimo exemplo disso. A obra reúne mais de 1.500 tiras publicadas na Folha de S.Paulo entre 2004 e 2015. As tiras (únicas ou seriadas) possuem temas diversos, passando por humor, metalinguagem, filosofia, metafísica, críticas sociais e referências culturais, entre outros temas. O formato e a disposição dos quadros das tiras também são muito criativos. Elogiar Laerte é chover no molhado.
7 - Do Inferno - de Alan Moore (roteiro) e Eddie Campbell (arte) - EUA, 1989-1998 - Editora no Brasil: Veneta (2014 - edição atual é de 2024)

Breve comentário: Em 1988, os assassinatos de cinco mulheres em Whitechapel, no East End de Londres, completaram 100 anos. Os crimes foram cometidos pelo serial killer apelidado pela imprensa de Jack, o Estripador, que não foi identificado até hoje. Nesse contexto, o genial roteirista Alan Moore decidiu criar uma história sobre esses acontecimentos. A série, intitulada Do Inferno, começou em 1989 e terminou em 1998, com desenhos feitos pelo talentoso Eddie Campbell.
O título da obra faz referência à carta “From Hell”, postada junto à metade de um rim humano em 15/10/1888 por um homem que afirmava ser o famoso estripador. Apesar de o fato dividir opiniões, acredita-se que o documento tenha sido escrito pelo verdadeiro criminoso. Para criar a graphic novel, Moore e Campbell fizeram uma extensa pesquisa em livros e documentos sobre o assunto. Ao final do encadernado, há uma descrição de cada página explicando as fontes usadas e o que é fruto da imaginação dos artistas.
Para a trama, inteligentemente, Alan Moore optou por não fazer um whodunnit ("quem matou"), decidindo escolher uma identidade para o famoso assassino: no caso, William Gull, maçom e médico de confiança da Rainha Vitória. Assim, nesta história, os assassinatos são frutos de uma conspiração envolvendo a família real britânica e a maçonaria. A narrativa é complexa e extremamente detalhada, com diversas referências a fatos históricos, à literatura, à mitologia, à religião, ao ocultismo e aos símbolos maçônicos, além de conter críticas sociais. Do Inferno também faz uma excelente reconstrução da Londres do final do século XIX (méritos da arte estupenda de Campbell).
O roteiro de Alan Moore, a partir do protagonista, mostra como o cientificismo, a crença no progresso e os problemas sociais do século XIX levaram a eventos como as duas grandes guerras, a industrialização e a grande desigualdade do século XX. O traço carregado e escuro de Campbell ajuda na imersão da narrativa. Além disso, o desenhista capricha nos cenários, não poupa detalhes nos momentos de violência e dissecação, representa magistralmente as alucinações do protagonista e a cidade de Londres, conduzindo muito bem o ritmo de leitura.
8 - Fun Home: uma tragicomédia em família - de Alison Bechdel (roteiro e arte) - EUA, 2006 - Editora no Brasil: Todavia, 2018

Breve comentário: Fun Home é mais um daqueles quadrinhos autobiográficos que se destacam pela qualidade narrativa, artística e temática. Neste caso, Alison Bechdel narra a morte de seu pai, em circunstâncias que poderiam indicar um suicídio, e o momento em que ela se declara lésbica para a família.
Alison demonstra sua relação conturbada e comovente com o pai, Bruce Allen Bechdel: um agente funerário, professor de inglês, restaurador compulsivo, homossexual enrustido e uma pessoa distante, fria e obcecada por aparências. O ponto de aproximação entre pai e filha era a paixão pela literatura; por isso, a obra possui diversas referências e citações de livros. Outro ponto importante deste quadrinho é a maneira como aborda e desenvolve a questão da identidade sexual a partir da experiência pessoal da autora.
A história é contada avançando e recuando no tempo, o que a torna ainda mais envolvente. Bechdel consegue nos prender de tal forma durante a leitura que passamos a nos sentir próximos dela, como se tivéssemos presenciado os eventos. A arte e a diagramação das páginas também funcionam muito bem.
9 - Quando Nasce a Autoestima - de Regiane Braz (roteiro) e Jefferson Costa (arte e cores) - Brasil, Trem Fantasma, 2024

Breve comentário: A obra conta a história de Beatriz, também chamada de Neguinha por sua mãe. Desde a infância, a menina precisou enfrentar o racismo dentro da própria família e de pessoas próximas, o que gerou inseguranças e consequências ao longo de sua vida. Quando adulta, ela se torna professora e ainda sofre perseguições em razão do preconceito racial no ambiente de trabalho.
A história é narrada alternando entre passado e presente, abordando diversos aspectos da vida da personagem principal.
Apesar dos problemas, a protagonista passa por um processo de autoconhecimento, alinhado ao letramento racial e, principalmente, à força do reencontro com sua ancestralidade, conseguindo superar suas angústias. A autoestima nasce desse processo. Desse modo, mais do que sobre racismo, preconceito e intolerância, este quadrinho é sobre resistência, força, esperança e ancestralidade.
O roteiro de Regiane Braz é muito bem construído, trabalhando com maestria a não linearidade da narrativa, diálogos ricos e dinâmicos e referências a diversos autores e autoras que discutem questões raciais. A arte de Jefferson Costa é um show à parte, alinhando-se perfeitamente ao roteiro e destacando-se pela fluidez da narrativa visual.
10 - Adeus, Eri - de Tatsuki Fujimoto (roteiro e arte) - Japão, 2022 - Editora no Brasil: Panini Comics, 2024

Breve comentário: Adeus, Eri foi lançado originalmente em formato digital e, posteriormente, em versão impressa. A obra de Tatsuki Fujimoto, um dos principais mangakás da atualidade, é um one-shot, ou seja, um mangá de volume único. Nele, acompanhamos o jovem Yuuta, que ganha um celular de aniversário. Após abrir o presente, sua mãe, que está no estágio final de uma doença grave, pede para que ele a filme constantemente, reunindo o conteúdo em um filme caso ela venha a óbito, deixando o material como memória.
Yuuta faz o filme e exibe seu trabalho na escola. Entretanto, os colegas não gostam do que veem e ridicularizam, excluem e praticam bullying com o protagonista. Após esses acontecimentos, ele decide se suicidar pulando do hospital onde sua mãe faleceu. Antes de saltar, é impedido por uma garota misteriosa chamada Eri, que afirma ter gostado do filme apesar de seus vários problemas. Eri, grande fã e conhecedora de cinema, incentiva e auxilia Yuuta a produzir um novo longa. Juntos, eles decidem criar uma história semiautobiográfica, com elementos fantasiosos. Conforme a trama evolui, em uma excelente jogada de roteiro, descobrimos que Eri esconde um segredo de Yuta e que a ficção (o filme de Yuuta) se mistura e se confunde com a realidade (a trama principal).
Uma ideia muito criativa de Fujimoto é o uso das vinhetas em formato retangular e na posição horizontal, simulando a proporção de uma tela. Além disso, alguns desenhos são desfocados, dando a sensação de gravação; em outros casos, vemos os acontecimentos a partir do ponto de vista do protagonista. O autor também utiliza cenas repetidas para transmitir a ideia de movimento, como uma sequência de frames. Enfim, esse mangá tem um roteiro inteligente, com personagens cativantes, histórias dentro da história, ambiguidades propositais e uma excelente narrativa visual. É, também, uma bela homenagem ao cinema e às obras de ficção.
Menções honrosas
Agora, vejamos 5 ótimos quadrinhos que por muito pouco não ficaram na lista principal.
1 - Isolamento - de Helô D’Angelo (roteiro, arte e cores) - Brasil, IndieVisivel Press, 2022

Breve Comentário: Certamente, a pandemia do vírus Covid-19 foi um dos momentos mais difíceis dos últimos anos. Nosso país foi um dos que mais sofreram com ela, perdendo milhares de pessoas. Em 2020, vimos-nos em quarentena, cheios de angústias e preocupações, enquanto os números de contaminações e óbitos aumentavam, e as autoridades agiam com descaso.
Isolamento é um ótimo retrato desse período. O quadrinho é um conjunto de tiras ambientadas em um edifício, no qual as janelas/sacadas são as vinhetas. Helô apresenta diversos personagens que sintetizam um pouco de tudo o que vivemos no período de confinamento; assim, temos negacionistas, médicos, trabalho e estudo em modo remoto, discussões políticas e preocupação com a família. Os personagens também apresentam diversidade, trazendo representatividade: alguns são LGBTQIAPN+, idosos, mulheres, adolescentes etc. Esta HQ é de grande sensibilidade e reforça que não podemos esquecer o que passamos nos anos de pandemia.
2 - Onde Habita o Medo - de Tai (roteiro e cores) e Nil (arte) - Brasil, independente, 2024.

Breve comentário: Onde Habita o Medo é um quadrinho do coletivo de quadrinistas indígenas que é uma sequência de “Causos de Visagens para Crianças Maluvidas”; assim, podemos conhecer mais sobre o protagonista Kauê, um menino da capital que costuma passar as férias na casa de seus avós, localizada em uma vila às margens do Rio Amazonas.
Na trama, a vila está sofrendo com desaparecimentos misteriosos de crianças. Kauê decide trabalhar em equipe com seus amigos nativos Tainara, Lucas e Moema para solucionar o problema. Em sua jornada, os jovens vivem desventuras encantadas e arrepiantes, enfrentando antigas maldições e precisando retomar a espiritualidade de seu povo. É uma obra sobre ancestralidade que nos faz aprender mais sobre a cultura e as crenças dos povos indígenas da região Norte. O quadrinho é envolvente e conta com um belo trabalho de arte.
Os povos originários foram os primeiros a contar histórias, portanto sempre é importante ler e ouvir o que eles têm a dizer. Onde Habita o Medo é um ótimo exemplo e um bom começo para isso.
3 - São Francisco - de Gabriela Güllich (roteiro e arte) e João Velozo (fotos) - Brasil, independente (2019) e Conrad (2025)

Breve comentário: São Francisco é uma obra de jornalismo em quadrinhos. Nela, a quadrinista e jornalista Gabriela Güllich e o fotojornalista João Velozo apresentam o resultado de sua reportagem sobre a vida das pessoas na região da transposição do Rio São Francisco. O quadrinho aborda a importância do rio, a seca e a obra em si. Os dois percorreram mais de 1.000 km durante 15 dias, passando por todas as cidades do Eixo Leste da área onde foi feita a transposição.
O quadrinho traz diversas entrevistas com pessoas que vivem entre Pernambuco e Paraíba, que nos ajudam a conhecer mais sobre a região, os desafios, sonhos e anseios dos moradores, evidenciando o papel do rio. São Francisco é uma ótima oportunidade de acompanhar fatos que dificilmente apareciam nos meios do jornalismo tradicional e apresenta uma narrativa visual interessante, misturando quadrinhos com fotografia.
Supergirl: Mulher do Amanhã - de Tom King (roteiro), Bilquis Evely (arte) e Mat Lopes (cores) - EUA, 2021-2022 - Editora no Brasil: Panini (2022 e 2024)

Breve comentário: Supergirl, Kara Zor-El, foi criada em 1959 (um ano antes, surgiu uma Supergirl, mas era um “protótipo” que durou apenas uma edição) e, de lá para cá, a super-heroína possui diversas versões e protagonizou algumas séries solo nos quadrinhos. Apesar disso, a personagem era conhecida apenas por ser prima do Superman ou, pior, um “Superman de saia”. A minissérie Mulher do Amanhã, dividida em 8 partes, veio para mudar esse cenário, entregando uma ótima construção da personagem. É a história definitiva da Supergirl!
A história começa quando Supergirl, acompanhada do cachorro Krypto, decide visitar um planeta com sol vermelho, que inibe seus poderes, para poder comemorar seu aniversário de 21 anos se embriagando. No local, ela conhece a jovem Ruthye, uma pobre camponesa que teve o pai assassinado por um mercenário inescrupuloso chamado Krem dos Montes Amarelos. A garota decide “contratar” Kara para vingar seu falecido pai. Ruthye, em uma versão, é a narradora da história.
Pode parecer simples, mas a trama vai além disso. King criou uma história sobre moralidade, legado, importância dos super-heróis, inutilidade da vingança e amizade e mentoria entre duas mulheres tão distintas. Além disso, o roteirista apresenta uma Supergirl traumatizada pela destruição de Krypton e “boca suja”, mas que está sempre disposta a fazer o bem e ajudar quem precisa. O grande destaque desta obra é a arte sensacional da dupla brasileira Bilquis Evely e Mat Lopes, que criam cenários belíssimos e extremamente detalhados, ótimos figurinos, páginas que emulam muito bem o movimento, excelentes cenas de ação e uma forte representação das expressões faciais e dos sentimentos dos personagens. A história possui problemas, como repetições e excesso de texto, mas a arte supera esses defeitos.
5 - Omnibus Mulher-Maravilha por George Pérez vol. 2 - de George Pérez (argumento e roteiro), Mindy Newell (argumento e roteiro), Chris Marrinan (arte), Will Blyberg (arte-final) e Carl Gafford (cores) - EUA, 1988-1990 - Editora no Brasil: Panini (2025)

No final da década de 1980, George Pérez comandou a reformulação da Mulher-Maravilha, entregando ótimas histórias e devolvendo a princesa Diana ao lugar de destaque que ela merecia. O encadernado contém as edições de número 25 a 45 e o anual 2, produzidas entre o final de 1988 e agosto de 1990.
As histórias são muito divertidas e apresentam novos personagens, conceitos e lugares que se tornaram importantes na mitologia da Mulher-Maravilha, com destaque para as amazonas de Bana-Mighdall. Pérez aprofunda personagens como Hermes e a Mulher-Leopardo, arqui-inimiga de Diana, e desenvolve mais a relação da protagonista com outros super-heróis do universo DC e a sua missão no mundo do patriarcado. Ademais, as amazonas também são desenvolvidas, especialmente no arco em que recebem a visita de uma delegação de pessoas da ONU e precisam combater Éris, a deusa da discórdia.
Chris Marrinan, Will Blyberg e Carl Gafford entregam um trabalho de arte competente, com cenas de ação muito boas, paisagens detalhadas e bons layouts de página. Outro aspecto positivo é a entrada de Mindy Newell, auxiliando Pérez nos roteiros a partir da edição 36, trazendo um importante e necessário olhar feminino para as histórias da Mulher-Maravilha.
Leram a lista do Iuri? Parece uma catapulta, né? Só pedrada... Bom, agora é a minha vez hehe
Lista 2: Por Igor Biagioni Rodrigues - será que está por ordem de preferência??
10- Avatar - O último mestre do ar: A Fenda - de Gene Luen Yang (roteiro) e Gurihiru (arte) - EUA, 2014 - Editora no Brasil: Planeta (2024).

Breve comentário: Em A Fenda, Aang e seus companheiros resolvem comemorar um feriado que estava esquecido há um século. Porém, tudo muda quando o espírito da Avatar Yangchen surge de forma misteriosa e conduz Aang até uma refinaria instalada em território sagrado dos Nômades do Ar. A partir daí, o grupo se vê ameaçado pelo despertar de um antigo e poderoso espírito, determinado a espalhar vingança e caos. Continuação da animação e dos quadrinhos anteriores, também escritos por essa mesma equipe, A Fenda é uma história que não fica atrás em nenhum aspecto da qualidade criada por Avatar na animação, ampliando a lore desse universo, desenvolvendo ainda mais os personagens e criando novos conflitos em uma trama cativante, engraçada e com uma arte excepcional.
9- Omnibus Sete Soldados da Vitória por Grant Morrison - de Grant Morrison (roteiro), Simone Bianchi, Cameron Stewart, Ryan Sook, Frazer Irving, Pasqual Ferry, Yanick Paquette, Doug Mahnke (desenhos) Nathan Eyring, Moavero, Frazer Irving, Guy Major e David Baron (cores). EUA, 2005-2006- Editora no Brasil: Panini (2022).

Breve comentário: Sete Soldados talvez seja o título, ou melhor, o arco de histórias, mais subestimado não só da DC Comics, como dos quadrinhos como um todo. E acredito que isso se dê por puro desconhecimento por parte de um público mais amplo. Mas por que eu acho isso? Bom… vamos lá: Sete Soldados da Vitória é uma narrativa épica de Grant Morrison que aborda temas como vida, morte, conquista e redenção, investigando o sentido do heroísmo e do sacrifício. A obra reúne sete figuras centrais: Cavaleiro Andante, Guardião, Zatanna, Senhor Milagre, Frankenstein, Projétil e Klarion, o Menino Bruxo, cada uma apresentada em tramas autônomas que ressignificam seus papéis dentro do Universo DC. Ainda que independentes, essas histórias se cruzam de maneira engenhosa, compondo um épico singular. Unidos pelo destino, esses heróis improváveis precisam salvar o mundo sem jamais se encontrarem.
Sete Soldados da Vitória não termina com sua última edição (apesar de a história se encerrar ali). O envolvimento do leitor continua sendo parte essencial da obra. O projeto foi publicado de forma complexa, ousada e deliberada, com um especial inicial e outro final, além de sete minisséries intercaladas, cada uma dedicada a um dos personagens. Estratégia que faz parte do próprio jogo narrativo criado por Grant Morrison. A série exige atenção extrema aos detalhes e funciona como um grande quebra-cabeça, no qual nada é gratuito: elementos que parecem aleatórios em uma história de um personagem ganham sentido em outra, de outro personagem. A obra se aproxima de narrativas convergentes, que podem ser compreendidas superficialmente, mas Sete Soldados se torna muito mais divertido quando lido em sua totalidade. Eis uma obra que passarei a vida relendo…
8- Como abraçar um Fantasma - de Lark (Roteiro, arte e cores) - Brasil 2022- Editora: Arte e Letra.

Breve comentário: Como Abraçar um Fantasma é um compilado de tiras da Lark em que ela retrata como a vida não é fácil, não!: trabalho, contas para pagar, crises existenciais e… três fantasmas com quem ela convive! De maneira muitíssimo divertida, Lark retrata um pouco de sua biografia e de seu dia a dia. Sua relação com a arte, com a criação e a maneira como ela transmite isso, com bom humor e excelentes reflexões, fazem deste um quadrinho essencial para qualquer apreciador da nona arte, mas principalmente para aspirantes a artistas ou para aqueles que estão começando. Uma obra inspiradora e muito divertida.
7- Omnibus Batman por Paul Dini- de Paul Dini (roteiro), Dustin Nguyen, Don Kramer, J.H. Williams III, Joe Benitez, Ryan Benjamin (desenhos), John Kalisz, Dave Stewart, Guy Major (cores). - EUA 2001-2002, 2006-2011, 2014 e 2019. - Editora no Brasil: Panini (2024).

Breve comentário: Paul Dini é um dos melhores roteiristas do Homem-Morcego; basta ver seu trabalho na série animada do Batman e na franquia dos jogos Arkham. Era óbvio que, nos quadrinhos, não seria diferente. Este encadernado em questão compila as histórias do Morcegão escritas por Paul Dini ao longo dos anos, principalmente sua run em Detective Comics, iniciada em 2006, e na revista Ruas de Gotham, de 2009.
As histórias de Dini, muitas vezes, são quase antológicas, com relações entre si (como era na própria série animada) e, às vezes, finalizadas em uma ou duas edições, aprofundando cada vez mais o maculado mundo de Gotham! Batman enfrenta seus maiores inimigos: Coringa, Hera Venenosa, Arlequina, Ra’s al Ghul, Pinguim, Charada e muitos outros, sozinho e/ou com a ajuda da Batfamília e de outras parceiras, como Zatanna e Mulher-Gato.
Mas o grande destaque dessa passagem de Dini com o personagem é o seu trabalho com o vilão Silêncio. Sim, aquele mesmo daquela história medíocre criada por Jeph Loeb e desenhada por Jim Lee. Aqui, Dini reestrutura o vilão e entrega tramas devastadoras, como em “O Coração de Silêncio” e “A Casa do Silêncio”. Com ilustrações de diversos artistas, esta é uma obra indispensável para qualquer fã do Batman de longa data ou para aqueles que querem se aprofundar mais na rica mitologia de seu universo.
6- As Muitas Mortes De Laila Starr - de Ram V (roteiro) e Filipe Andrade (desenhos e cores) - EUA, 2021- Editora no Brasil: Devir (2023).

Breve comentário: O surgimento de Darius, uma criança profetizada para criar a imortalidade, provoca a destituição da própria deusa da Morte. Banida de sua condição divina e condenada a viver como humana, ela passa a habitar o corpo de Laila Starr, uma jovem recém-falecida. Em As Muitas Mortes de Laila Starr, de Ram V e Filipe Andrade, acompanhamos essa antiga entidade, agora mortal, em uma jornada obsessiva em Mumbai, determinada a encontrar e punir o menino da profecia. Contudo, limitada por um corpo frágil e atravessada por sentimentos inéditos, sua missão se transforma em uma experiência profunda de autodescoberta.
A HQ constrói uma narrativa mística e melancólica que reflete sobre a vida, a morte e o que significa ser humano, explorando referências da cultura indiana e a repetição cíclica dos encontros entre Laila e Darius ao longo dos anos. A história é dividida em cinco capítulos e subverte expectativas ao encerrar cada parte com a morte acidental da protagonista, sempre seguida por sua ressurreição pelas mãos de Prana, o deus da vida. Visualmente, o trabalho expressivo de Filipe Andrade, aliado a cores vibrantes, reforça a potência emocional do roteiro. O quadrinho é uma excelente obra que nos faz refletir sobre o impacto da morte na vida e vice-versa, ou seja, como é a morte que faz da vida algo belo. (Destaque para o terceiro capítulo, em que parte é contada a partir do cigarro que Laila fumou; é realmente muito inteligente e impressionante!).
5- Eu Sou o Seu Silêncio - de Jordi Lafebre (roteiro e arte), Clémence Sapin, Bruno Tatti, Laëtitia Ferouelle, Angelina Rodrigues, Romain Rosiau (cores/assistentes)- França/Bélgica, 2023- Editora no Brasil: Pipoca e Nanquim (2025).

Breve comentário: Costumo brincar dizendo que quadrinhos europeus são lindos visualmente, mas desprovidos de qualidade narrativa. A cada obra que leio de Jordi Lafebre, ele prova o quão errado eu posso estar. Em Eu Sou Seu Silêncio, acompanhamos Eva Rojas, uma talentosa psiquiatra que está bem longe do que se convencionou chamar de “conduta profissional”. Entre o abuso de álcool e remédios, uma vida sexual intensa e o desprezo por qualquer tipo de hierarquia, ela acaba tendo sua licença cassada. Para recuperá-la, Eva precisa provar que ainda é capaz de exercer a profissão, algo que seria muito mais fácil se ela não estivesse diretamente ligada a uma cena de crime.
O assassinato dentro de uma das famílias mais ricas de Barcelona expõe rivalidades e segredos nada edificantes, e a própria Eva, nada discreta, passa a ser vista como a principal suspeita. Determinada a limpar seu nome, ela decide investigar o caso por conta própria, contando com a ajuda das vozes de sua avó e de suas tias-avós, mulheres mortas que a acompanham.
Eu Sou Seu Silêncio é um excelente whodunnit (obra do estilo “quem matou?”), não só pelo mistério que prende do início ao fim, nem apenas pela excelente arte de Jordi Lafebre, que é cartunesca, funcional e apaixonante, mas principalmente por sua protagonista. Convenhamos: Eva é maior que sua própria história. A personagem é inteligente, cínica, despreza autoridades, é sexy, engraçada e muito bem escrita. A maneira como Lafebre a desenvolve à medida que constrói o mistério do crime no qual a personagem se envolveu demonstra que sua narrativa e escrita não ficam atrás da qualidade de seus desenhos. Ansioso para o próximo capítulo dessa saga (que já foi lançado lá fora ainda neste ano de 2025!).
4- Na Mente de Sherlock Holmes- de Cyril Lieron (roteiro) e Benoit Dahan (desenhos e cores)- França, 2019 e 2021- Editora no Brasil: Pipoca e Nanquim (2023).

Breve comentário: “Não julgue um livro pela capa”. Isso é algo que escutamos muito e que faz os designers reclamarem bastante (e com razão; eu julgo capas a rodo, hehe), mas o que esperar de um quadrinho com uma capa tão bacana quanto essa de Na Mente de Sherlock Holmes, publicada pela editora Pipoca e Nanquim? Certo, para quem está se perguntando como é a capa, vou descrevê-la de forma bastante simplória, mas suficiente para atiçar sua curiosidade: temos a cidade de Londres ao fundo e um recorte no formato da cabeça de Sherlock, que nos permite ver uma página do quadrinho com ele lá. E isso já traz um gostinho do que você encontrará ao ler essa história, que é definitivamente (até o momento) o quadrinho com o projeto gráfico e artístico mais bonito que já li.
Na Mente de Sherlock Holmes – O Caso do Bilhete Escandaloso, minissérie francesa lançada em dois volumes entre 2019 e 2021, escrita por Cyril Liéron e Benoit Dahan, destaca-se por transformar o raciocínio de Holmes em estrutura gráfica, materializando visualmente o fluxo mental do detetive enquanto ele monta o quebra-cabeça do mistério.
Aqui, a investigação não se limita à trama: ela está impressa na própria organização das páginas. A diagramação conduz o olhar do leitor como se seguisse trilhas de pensamento, conectando ideias, pistas e associações internas de Holmes. Esse cuidado estético faz com que cada página exija atenção prolongada, convidando à contemplação dos detalhes e das formas que sugerem mais do que mostram. Narrativamente, a história começa de maneira fragmentada, com Watson tentando conter os vícios do amigo, o que reforça o contraste entre a apatia inicial e o estado de hiperconcentração que toma conta de Holmes quando o caso finalmente se impõe.
A história também brilha ao abordar questões sociais, tratando do passado imperialista britânico, do tráfico de ópio e da exploração de pessoas consideradas fora do padrão pela sociedade como forma de espetáculo. Essa temática se deve muito ao vilão, mas não falarei além disso para evitar spoilers. Em suma, o quadrinho é uma obra-prima, com um roteiro que entrega um mistério interessante e nos guia por uma experiência visual e gráfica como jamais vi igual! (Sim, em alguns momentos você vai precisar até mesmo de uma lanterna para ler o quadrinho e encontrar pistas para desvendar parte do mistério).
3- Oleg- de Frederik Peeters (roteiro e arte)- Suíça, 2020- Editora no Brasil: Nemo (2021).

Breve comentário: Frederik Peeters é um artista impressionante. Após o incrível Pílulas Azuis, Peeters faz de novo: escreve uma história autobiográfica extremamente potente, metalinguística e impossível de se ler sem ficar indiferente. Oleg é um quadrinista que está há duas décadas trabalhando nesse meio; também está casado há todo esse tempo e possui uma filha adolescente e, agora, enfrenta um bloqueio criativo. Oleg é o nome do alter ego que Frederik Peeters usa para si mesmo neste belíssimo quadrinho, que, de forma episódica, vai narrando e debatendo inúmeras situações da vida do quadrinista.
Essa obra é um excelente exemplo do poder dos quadrinhos como mídia: Peeters utiliza esse meio para fazer uma reflexão sobre a própria linguagem dos quadrinhos e uma crítica ao mercado editorial. Os desenhos são uma perfeição à parte, com um ótimo uso do contraste entre preto e branco. Oleg é uma daquelas obras que fazem você lembrar por que ama o que ama... E como isso é bom.
2 - Sin City (7 volumes) - de Frank Miller (roteiro e arte) - EUA, 1991-2000 - Editora no Brasil: Devir, 2022-2023

Breve comentário: Miller foi glorioso na década de 1980: Ronin, Batman: O Cavaleiro das Trevas, A Queda de Murdock e Batman: Ano Um. Mas sua verdadeira obra-prima viria a ser lançada na década de 1990, com a série Sin City. Inspirado no gênero noir, Miller pega tudo o que faz desse um dos melhores gêneros cinematográficos (e, talvez, o favorito de quem vos escreve): mistério, protagonistas de moral duvidosa, monólogos, damas fatais, uma cidade maculada por crimes e violência, muita violência (e, às vezes, ninjas, é claro).
Além da temática narrativa, Sin City é visualmente belo. Se os filmes das décadas de 1940 e 1950 utilizavam o chiaroscuro, o contraste entre luz e sombra, Miller recorre ao contraste entre preto e branco para criar vinhetas e painéis de tirar o fôlego. Em alguns volumes, com destaque para o quarto, O Assassino Amarelo, outras cores são acrescentadas, criando um destaque necessário para certos personagens e fazendo com que o contraste seja ainda maior, ampliando o impacto narrativo também de forma visual.
É justamente esse excelente trabalho gráfico que faz com que não nos importemos com as narrativas simplistas (longe de serem ruins, pelo contrário) e foquemos no que o autor mais quer que valorizemos: a violência gráfica, a sedução das personagens femininas e a atmosfera que parece retirada diretamente dos filmes noir e da literatura pulp que o quadrinho recria com perfeição.
1- É Solitário no Centro da Terra- de Zoe Thorogood (roteiro, arte e cores) - Inglaterra, 2022 - Editora no Brasil: Conrad (2024).

Breve comentário: Ler É Solitário no Centro da Terra foi uma das experiências mais dolorosas pelas quais já passei ao consumir uma mídia. Zoe Thorogod já havia se provado uma das melhores quadrinistas deste século com o excelente A Cegueira Iminente de Billie Scott, mas o que ela faz aqui é realmente de outro patamar. E, assim como a própria autora deixa como aviso no início de seu quadrinho, é preciso estar bem para lê-lo, pois ela trata de temas muito profundos, tocantes e dolorosos.
É Solitário no Centro da Terra apresenta um retrato pessoal e autorreflexivo da trajetória de uma artista para quem criar é uma necessidade vital. A obra constrói, de forma sensível e inventiva, o enfrentamento de uma jovem mulher com suas fragilidades emocionais, passando pela ansiedade, pela depressão, por pensamentos suicidas e pelo sentimento constante de não pertencimento, enquanto ela constrói seu espaço nos quadrinhos e, nesse processo, passa a compreender melhor a si mesma.
Acredito que nenhuma outra obra retrate de forma tão crua e verdadeira a depressão. Acompanhamos vários momentos da vida de Zoe, desde o lançamento e o sucesso de A Cegueira Iminente de Billie Scott até o início da pandemia de Covid-19, em uma autorreflexão sobre a vida, a solidão e a arte. A propósito, a arte de Zoe é um deslumbre à parte. A quadrinista britânica é muito versátil, transmitindo, por meio de seus desenhos (que transitam do realista ao caricato conforme a necessidade), seus sentimentos e pensamentos.
Uma das coisas que mais me doía era justamente pensar que, algum tempo depois do lançamento dessa obra-prima, Zoe perdeu seu irmão (ele se suicidou…), e, desde então, ela vem trazendo em suas obras e postagens nas redes sociais o impacto que isso teve em sua vida. Aliás, isso vai virar um quadrinho, It Took My Brother, que tenho certeza de que será ainda mais tocante do que É Solitário no Centro da Terra, que, na minha humilde opinião, já se tornou um dos, se não o, melhor quadrinho deste século.
Menções honrosas:
A galerinha que é excelente também, e por pouco não entrou no top 10!
5- Batman/Deadpool em O Caso do Chamego Cósmico- de Grant Morrison (roteiro), Dan Mora (desenhos) e Alejandro Sánchez (cores)- EUA 2025- Editora no Brasil: Panini (2025).

Breve comentário: 2025 marcou o retorno dos crossovers entre a DC Comics e a Marvel. A primeira colaboração entre as duas editoras ocorreu em 1976, com nada menos que o encontro de Superman e Homem-Aranha. Depois disso, inúmeros outros crossovers aconteceram: Batman e Hulk, Novos Titãs e X-Men, DC vs. Marvel, Universo Amálgama e, por fim, Liga da Justiça e Vingadores, entre 2003 e 2004. Mais de 20 anos depois de sua última colaboração, Marvel e DC se uniram novamente e anunciaram duas revistas: Deadpool e Batman (Marvel) e Batman e Deadpool (DC).
Enquanto o crossover comandado pelo infame roteirista Zeb Wells, pelo lado da Marvel, foi o mais genérico possível, a DC pediu a ninguém menos que Grant Morrison que cuidasse desse encontro. Ao lado do novo e excepcional grande nome dos desenhos da DC, Dan Mora, Morrison faz um trabalho brilhante e maluco (como de praxe), trazendo referências às suas próprias fases com personagens da DC, a outros crossovers das duas editoras, a animações da década de 1920 e até mesmo a vídeos de backrooms (sim!). Ler Batman e Deadpool foi como realizar o sonho de uma criança que vive imaginando o que aconteceria se os personagens de seus universos favoritos se encontrassem!
4- Demolidor: O Homem Sem Medo- de Frank Miller (roteiro), John Romita Jr (desenhos) Christie Scheele (cores) e Al Williamson (arte-final) -EUA 1993-1994- Editora no Brasil: Salvat (2016).

O Demolidor é o personagem mais interessante da Casa das Ideias, e muito disso se deve à sua reinvenção pelas mãos do lendário Frank Miller. Anos depois de sua passagem pelo personagem, Miller se une a ninguém menos do que John Romita Jr. (em um dos melhores e mais inspirados trabalhos do desenhista) para recontar a origem de Matt Murdock.
Há um fogo interior que define Matt Murdock. Criado por um pai boxeador em declínio, que viu em sua última luta a oportunidade de fazer o que era certo, pagando por isso com a própria vida, Matt cresceu marcado pela perda e pela adversidade. Alvo constante de zombarias na infância, seu destino mudou para sempre quando, ao proteger um homem idoso, foi atingido por resíduos radioativos e perdeu a visão. Em troca, desenvolveu uma determinação inquebrável e uma mente afiada, capazes de orientar e potencializar os sentidos extraordinários que surgiram a partir do acidente.
Acompanhar uma origem repaginada desse personagem barroco pelas mãos de seu melhor escritor e do meu desenhista favorito foi realmente uma das melhores experiências do ano.
3- A História e Glória da Dinastia Pato (4 Volumes)- de Guido Martina, Alberto Savini Giorgio Figus (roteiro), Romano Scarpa, Andrea Freccero, Valerio Held (desenhos) e Giovan Battista Carpi (desenhos e arte-final) - Itália 1970, 1994, 1996, 2003 e 2005- Editora no Brasil: Panini (2024-2025).

Breve comentário: Escrita por Guido Martina em 1970, a série acompanha, ao longo dos séculos, a linhagem de Tio Patinhas, Pato Donald e Huguinho, Zezinho e Luisinho. Ruídos misteriosos registrados na Lua estão deixando Tio Patinhas inquieto, pois podem ser o sinal de um antigo segredo: um cofre cheio de moedas de ouro que ele teria escondido no satélite terrestre. Forjadas ao longo de mais de dois mil anos por figuras históricas ligadas aos ancestrais de seus parentes, essas moedas possuem a habilidade singular de revelar a história de vida estampada em suas faces.
Quando Donald e os sobrinhos se envolvem nessa confusão, passam a desvendar o passado ilustre da própria linhagem, começando por Pah-Tih-Nhas, tesoureiro da rainha Cleópatra no Egito Antigo, e por Petronius Patinius, um estalajadeiro da Roma sob o domínio do imperador César Pateticus. A história percorre diversos momentos da história da humanidade com versões da família pato e, sem nenhuma pretensão histórica ou canônica, a narrativa entrega momentos muito divertidos e engraçados com a família pato que tanto amamos.
2- Do Contra: Herança- de Yoshi Itice (roteiro, desenho e cores)- Brasil 2024- Editora: Panini.

Breve comentário: 41º título do selo Graphic MSP, Do Contra: Herança foi uma grata surpresa. A história acompanha Do Contra em um caminho mais íntimo e reflexivo, passando por um processo de autoconhecimento ligado às suas origens japonesas. A obra transforma o personagem em ponto de partida para uma investigação pessoal sobre identidade, pertencimento e aceitação cultural.
Criada por Yoshi Itice, que tem descendência japonesa, a narrativa dialoga diretamente com a experiência nipo-brasileira. Ao explorar as tensões de viver entre duas culturas, o quadrinho reflete conflitos internos comuns a quem transita entre heranças distintas. Do Contra: Herança é um trabalho de representação e reconhecimento, ecoando as vivências de muitos descendentes de japoneses no Brasil que buscam compreender suas raízes e a complexidade de quem são. (Tem uma surpresinha no meio do quadrinho que é realmente genial!).
1- Trilogia Jeremias (3 Volumes): Pele, Alma e Estrela- de Rafael Calça (roteiro) e Jefferson Costa (desenhos e cores) - Brasil 2018, 2020 e 2023- Editora Panini

Breve comentário: Permitam-me trapacear mais uma vez (fiz algo semelhante com Sin City e A História e Glória da Dinastia Pato). Escolher apenas um título entre esses três seria perder outros dois que também são muito importantes. Jeremias foi um dos primeiros personagens criados por Mauricio de Sousa, lá em 1960; porém, ele só veio a estrelar um título próprio em 2018, com a publicação de Jeremias – Pele, obra que, no ano seguinte, viria a ganhar o Troféu Jabuti na categoria Quadrinhos. Seu impacto e importância dentro da MSP foram tão grandes que Jeremias passou a ganhar mais destaque nas histórias mensais da turminha e na Turma da Mônica Jovem. Aliás, foi após o lançamento e o sucesso de Pele que Milena fez sua estreia nos quadrinhos.
Mas qual a razão de tanto sucesso? Além da óbvia qualidade dos títulos, eles são extremamente importantes não só para a Mauricio de Sousa Produções, como também para os quadrinhos nacionais como um todo, servindo como um grande ponto de virada para a representação e a produção negra na nona arte brasileira. Ao utilizarem um espaço/título de bastante visibilidade, como são as Graphic MSP, Calça e Costa, com suas histórias sobre preconceito, ancestralidade e representação, jogam luz sobre questões muito importantes e necessárias na sociedade brasileira.
Ufa! Com isso chegamos ao fim. Muito obrigado por acompanhar o Desenhando Recordatórios neste ano. Que o próximo ano seja repleto de quadrinhos e boas leituras, valeu!
Desejamos um feliz e fraterno ano novo para todo mundo! 🎊💬🎆
Igor e Iuri Biagioni :)







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