Crítica | Bugonia (2025)
- Igor Biagioni Rodrigues

- 3 de mar.
- 4 min de leitura
Uma sátira sobre o que é o ser humano
Por Igor Biagioni Rodrigues.

Contém spoilers! (Haverá um novo aviso no corpo do texto)
Bugonia. Ao me deparar com esse título e, depois, assistir ao filme, o significado da palavra passou a me inquietar. Após alguma pesquisa, descobri que o termo, de origem grega, significa literalmente “nascimento do boi” e designa uma antiga crença segundo a qual abelhas poderiam surgir espontaneamente do cadáver de um animal bovino. A ideia aparece em textos clássicos da Antiguidade, como nas Geórgicas, de Virgílio, em que é descrito um ritual que consistia no sacrifício de uma vaca para que, de seu corpo em decomposição, emergisse um novo enxame. Tratava-se de uma prática envolta em misticismo, vista como uma solução extraordinária, embora biologicamente impossível, para regenerar uma colmeia, associada à noção de geração espontânea e à simbologia da vida que nasce da morte. Ao pensar sobre o que escrever, considerei necessário me basear na definição do título. Retomarei essa ideia mais adiante, mas vamos por partes.
Sendo um remake (isto é, uma refilmagem ou recriação de uma obra já existente) do sul-coreano Save the Green Planet! (2003), Bugonia é uma comédia satírica que acompanha dois homens movidos por teorias conspiratórias que decidem sequestrar a poderosa CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é, na verdade, uma alienígena infiltrada com a missão de destruir a Terra. A partir daí, a narrativa se transforma em um jogo psicológico tenso e irônico, no qual sequestradores e vítima, além de figuras como um policial envolvido no caso, entram em um embate marcado por paranoia, manipulação e delírio. Entre acusações absurdas e tentativas de justificativa, todos os personagens se veem obrigados a provar, uns aos outros e a si mesmos, que não são tão insanos quanto suas próprias atitudes fazem parecer.

Bugonia marca a quarta parceria do diretor Yorgos Lanthimos com Emma Stone (A Favorita, Pobres Criaturas e Tipos de Gentileza), naquele que talvez seja seu filme mais comercial até o momento. Isso pode ser percebido pela condução mais convencional da narrativa. Seu absurdismo característico continua presente, mas os enquadramentos são mais tradicionais, com predominância de planos médios que, embora ainda provoquem certa inquietação pelo distanciamento dos personagens e pela ampliação do espaço cênico, não chegam perto das lentes olho de peixe que o diretor costuma utilizar (como em Pobres Criaturas).
Emma Stone está excelente no papel e reafirma a força dessa parceria com Lanthimos, uma colaboração que, ao que tudo indica, ainda a levará muitas vezes às premiações. Sua capacidade de transitar entre personagens tão distintos demonstra por que ela é um dos grandes nomes de sua geração. Além dela, é fundamental destacar Jesse Plemons e Aidan Delbis: Plemons constrói um Teddy visceral, tomado por convicções e fragilidades, enquanto Delbis confere ao seu personagem uma delicadeza que contrasta com o caos ao redor.

Enfim, retomemos a definição que dá título ao filme e sua relação com a mensagem da obra, e aqui fica o ALERTA DE SPOILER.
O desfecho de Bugonia, em que Michelle extermina instantaneamente toda a humanidade, pode ser interpretado como profundamente pessimista, sugerindo que a extinção humana funcionaria como uma espécie de “bugonia” contemporânea: um sacrifício que permitiria à natureza se regenerar e indicaria que os humanos já não merecem habitar o planeta. Assim como o antigo ritual era uma fantasia agrícola para resolver problemas reais por meio da magia, Teddy acredita que pode solucionar crises ambientais, políticas e pessoais ao derrotar um suposto inimigo externo: os seres de Andrômeda. Ao exagerar e confirmar suas suspeitas de maneira quase absurda, o filme expõe a fragilidade desse pensamento. Ainda que Teddy pudesse estar certo em sua teoria conspiratória, tudo o que faz para “resolver” o problema apenas agrava a situação, sugerindo que o verdadeiro inimigo da humanidade talvez seja ela própria. A obra, portanto, não decreta a condenação definitiva do ser humano, mas critica a tentação de buscar respostas simples para questões complexas, alertando para o perigo de depositar esperanças em teorias conspiratórias ou promessas de redenção milagrosa em vez de enfrentar concretamente os desafios do mundo real.
O longa mantém o tom satírico e o humor ácido que consagraram Lanthimos, mas, aqui, tenho a sensação de que o diretor por vezes se perde na própria narrativa. Algumas piadas se estendem além do necessário, diluindo sua força e enfraquecendo o impacto da revelação final. Lanthimos acaba, em certa medida, refém de sua própria assinatura estética e temática, entregando uma obra funcional e provocativa, mas que poderia alcançar um resultado ainda mais contundente.
Bugonia é uma sátira inquietante que utiliza o absurdo para refletir sobre paranoia, responsabilidade coletiva e a necessidade humana de criar inimigos externos para justificar seus fracassos. Ao dialogar com o conceito que lhe dá nome, o filme propõe uma metáfora amarga sobre sacrifício e regeneração, questionando se realmente aprendemos com nossas crises ou se continuamos apostando em soluções mágicas para problemas estruturais. Mesmo irregular, a obra reforça o talento de Lanthimos em provocar desconforto e debate, e nos deixa com a pergunta mais incômoda de todas: até que ponto nossa própria fantasia de salvação não é, também, parte do problema?
Para quem só se importa com números:
Nota- 7/10.
Ficha Técnica:
Título Original: Bugonia
Países de Origem: Irlanda, Reino Unido, Canadá, Coreia do Sul e Estados Unidos
Roteiro: Will Tracy (baseado em roteiro de Jang Joon-hwan)
Direção: Yorgos Lanthimos
Duração: 120 min.
Classificação: 18 anos
Elenco:
Jesse Plemons como Teddy
Aidan Delbis como Don
Emma Stone como Michelle
J. Carmen Galindez Barrera como Detetive
Marc T. Lewis como Investigador-Chefe
Vanessa Eng como Assistente Executiva
Cedric Dumornay como Agente Corporativo
Alicia Silverstone como Psicóloga






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