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Crítica | Marty Supreme (2025)

  • Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
    Igor Biagioni Rodrigues
  • há 23 horas
  • 4 min de leitura

Egocentrismo disfarçado de propósito e temperado com o sonho americano

Por Igor Biagioni Rodrigues


Marty Supreme
Cena de "Marty Supreme"- A24/Reprodução

Alguns filmes são definidos pelo seu protagonista, não apenas pelo personagem, mas também, e principalmente, pelo ator que o interpreta. Esse é o caso de Marty Supreme, dirigido por Josh Safdie, cujo protagonista foi escrito, pensado e encarnado por Timothée Chalamet. É possível enxergar o longa e seu personagem em uma espécie de intersecção com o próprio ator, que, premiação após premiação, deixa claro em seus discursos que busca a grandeza. Mas qual é o preço desse prêmio?


Ambientado na Nova York dos anos 1950 e levemente inspirado na biografia de Marty Reisman, Marty Supreme acompanha Marty Mauser, um ambicioso jogador de tênis de mesa que se recusa a aceitar uma vida comum trabalhando na loja do tio enquanto sonha em se tornar uma lenda do esporte. Determinado a conquistar reconhecimento internacional, ele embarca em uma jornada marcada por apostas arriscadas, decisões moralmente duvidosas e confrontos com figuras poderosas do submundo e da elite empresarial. Entre torneios decisivos, romances turbulentos e golpes do destino, Marty luta para provar seu talento e impor seu nome no cenário mundial, descobrindo que o caminho para a grandeza pode cobrar um preço alto, dentro e fora das mesas de jogo.


Marty é um personagem profundamente desagradável, que usa tudo e todos como degraus para atingir aquilo que chama de propósito maior, um propósito que, na verdade, só ele considera grandioso. Ele mantém um caso com sua amiga de infância casada, Rachel Mizler (interpretada por Odessa A’zion, em um papel que a projetou ainda mais em Hollywood), ignora a própria mãe e trata com desdém o tio, dono da loja de sapatos onde trabalha. Para Marty, pessoas não são vínculos: são obstáculos ou ferramentas. E o maior obstáculo de todos, além dele mesmo, é o mesatenista japonês e deficiente auditivo Endo (interpretado pelo próprio atleta Koto Kawaguchi), adversário para quem perdeu uma final de maneira humilhante e contra quem deseja obsessivamente uma revanche.


Marty Supreme
"Marty Supreme"- A24/Reprodução

Para alcançar essa revanche, Marty atravessa uma sucessão de situações caóticas e improváveis. É aqui que, a meu ver, o filme começa a se perder. Ele nunca pretende ser um drama esportivo convencional, mas sim uma comédia dramática sobre um homem correndo atrás de seus objetivos mesquinhos enquanto atropela tudo à sua frente. No início, essas desventuras funcionam, tanto pelo absurdo das situações quanto pelo fato de Marty ser detestável não por maldade deliberada, mas por incapacidade de ser diferente. No entanto, a estrutura passa a se repetir: esquetes de confusões intercaladas com a tentativa de ascensão esportiva e a conquista da atriz aposentada Kay Stone (interpretada por Gwyneth Paltrow, que sai de sua própria aposentadoria para o papel). Esse “pingue-pongue” narrativo (perdoem o trocadilho) cria uma barriga desnecessária em um filme que parece querer dizer muitas coisas ao mesmo tempo em que dilui parte de sua força.


Criar um paralelo entre Marty e Chalamet é quase inevitável. O ator vem consolidando sua posição em Hollywood, com papéis de destaque em Duna, Wonka e Um Completo Desconhecido, no qual estudou intensamente instrumentos para viver Bob Dylan. Para Marty Supreme, treinou durante anos no tênis de mesa, reproduzindo o estilo de Reisman sem recorrer a dublês. Seu comprometimento é admirável. E, de fato, esta é uma de suas atuações mais viscerais e caóticas e impossível desviar os olhos da tela. Ainda assim, surge a pergunta incômoda: até que ponto o filme não funciona também como uma vitrine calculada? Tudo orbita Marty. Todos existem para impulsioná-lo. O longa parece desenhado para elevá-lo, personagem e ator, à condição de grandeza. Outro paralelo inevitável é com o sonho americano e a diáspora judaica (Marty é judeu). A experiência judaica nos Estados Unidos sempre esteve ligada à ideia de reconstrução, mobilidade social e reinvenção. O sonho americano promete que trabalho duro e ambição levam à prosperidade; a diáspora judaica, por sua vez, carrega séculos de deslocamentos e recomeços. Marty condensa essa tensão: um homem que quer se elevar a qualquer custo, transformar-se em símbolo de sucesso, provar que pode dominar o mundo ao seu redor. Mas o filme revela, pouco a pouco, que essa busca pode ser vazia se desconectada de vínculos reais.


Marty Supreme
Cena de "Marty Supreme"- A24/Reprodução

É por isso que o encerramento com “Everybody Wants to Rule the World”, do Tears for Fears, é tão significativo. A canção fala sobre ambição, poder e arrependimento - “It’s my own design, it’s my own remorse” - como se o próprio Marty reconhecesse que sua vida é fruto de suas escolhas e também de suas falhas. Agora que cumpriu seu papel, que ele seja bem vindo ao mundo real e sua verdadeira vida: "Welcome to your life". “Nothing ever lasts forever” ecoa como um lembrete cruel: nem a glória, nem o ego, nem o domínio. Todos querem governar o mundo, mas poucos sabem lidar com o que perdem no processo.


Tecnicamente, o filme reforça essa ideia de descontrole e obsessão. A montagem é caótica e frenética, espelhando tanto a personalidade de Marty quanto o ritmo acelerado do tênis de mesa. O color grading aposta em tons mais escuros e sujos, contrastando com o suposto brilho do sonho americano e revelando o caráter moralmente turvo do protagonista. Já a trilha sonora, composta por músicas dos anos 1980 em uma história ambientada nos anos 1950, vai além de uma escolha estilística curiosa: ela sugere que Marty está sempre projetado no futuro, vivendo à frente do seu tempo, mas também reforça o frenesi e o espírito revolucionário associado àquela década, energia que traduz perfeitamente sua inquietação constante.


No fim, Marty e Chalamet parecem se refletir mutuamente: dois homens em busca de grandeza, conscientes de seu talento e dispostos a pagar o preço que for necessário para alcançar reconhecimento. Talvez Marty Supreme seja, acima de tudo, um alerta disfarçado de celebração: querer governar o mundo pode ser legítimo, mas é preciso decidir que tipo de mundo você está disposto a sacrificar para isso.


Para quem só se importa com números:

Nota- 7/10.


Ficha Técnica:

Título Original: Marty Supreme

País de origem: Estados Unidos

Roteiro: Josh Safdie, Ronald Bronstein

Direção: Josh Safdie

Duração: 150 min.

Classificação: 16 anos


Elenco:

Timothée Chalamet como Marty Mauser

Gwyneth Paltrow como Kay Stone

Odessa A’zion como Rachel Mizler

Kevin O’Leary como Milton Rockwell

Tyler Okonma como Dion

Abel Ferrara como Ezra Mishkin

Fran Drescher como Sra. Mauser

Luke Manley como Lloyd

Emory Cohen como Wally

Larry “Ratso” Sloman como Murray Mauser

Ralph Colucci como Ira Mizler

Géza Röhrig como Béla Kletzki

Koto Kawaguchi como Endo

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