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Crítica | Cara-de-Barro (2026)

Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
Igor Biagioni Rodrigues
há 11 minutos
6 min de leitura

O grotesco novo pilar da DC.

Por Igor Biagioni Rodrigues.

Cara-de-Barro
'Cara-de-Barro' — Foto: Divulgação/Warner.

Cara-de-Barro é o mais novo filme do DCU. Não, isso não é uma pegadinha. Além disso, é a primeira empreitada da DC Comics no gênero de terror nos cinemas. Mas será que o filme justifica sua existência ou é só mais uma produção medíocre do DCU?


Surfando na onda de que os projetos do DCU só veriam a luz do dia caso seus roteiros convencessem James Gunn (realmente precisamos rever o que o agrada...), ninguém menos que Mike Flanagan (Missa da Meia-Noite, A Maldição da Mansão Bly etc.) decidiu escrever um roteiro para um filme sobre o infame vilão do Batman, que possui mais de oito versões (ah, os quadrinhos... Mas isso é assunto para outra hora). Inspirado no lendário episódio duplo Perito em Formas Humanas, de Batman: A Série Animada, Flanagan apresentou uma proposta que convenceu Gunn e garantiu sinal verde para o projeto.


Porém, devido ao envolvimento com outras produções, como o remake de O Exorcista e a recente série de Carrie, a Estranha, Flanagan não pôde dirigir o filme. A missão ficou, então, a cargo de James Watkins, e, como se isso não bastasse, o roteiro ainda passou por reescritas pelas mãos de Hossein Amini. Com isso, meu interesse pelo longa, que vinha da curiosidade de descobrir como Flanagan trabalharia um dos meus vilões favoritos do Batman, adaptando um dos meus episódios favoritos da série animada, caiu por terra. Afinal, sua abordagem do terror costuma ir além do susto pelo susto, trazendo aquela carga de horror social que é uma das grandes forças do gênero.


Cara-de-Barro
'Cara-de-Barro' — Foto: Divulgação/Warner.

Nascido nas ruas de Gotham City, Matt Hagen (Tom Rhys Harries) é um ator em ascensão e um verdadeiro galã. No entanto, sua carreira promissora é brutalmente interrompida após um confronto com um chefe do crime local deixá-lo com o rosto irreconhecível. Abandonado pela indústria e sem nada a perder, Matt recorre a um tratamento estético radical e clandestino que, milagrosamente, restaura sua aparência. O procedimento, porém, cobra um preço terrível: alterações em sua estrutura celular comprometem sua sanidade e o transformam em um monstro feito de argila viva. Agora, sob a identidade de Cara-de-Barro, o ex-astro retorna às ruas de Gotham em busca de vingança contra aqueles que destruíram sua vida.


Entre suas diversas representações, Cara-de-Barro sempre rendeu boas histórias, e é possível perceber as inspirações de Batman: A Série Animada no longa, não apenas no episódio Perito em Formas Humanas, mas também em Escorregando na Lama. Há ainda referências aos quadrinhos, como Batman: Um Dia Ruim — Cara-de-Barro e o clássico Batman Annual #11 (1987). Tudo isso, combinado a uma abordagem de horror social e a toques de A Mosca, filme dirigido por David Cronenberg, forma um amálgama bastante interessante. O problema é que o longa nunca consegue alcançar seu verdadeiro potencial, tampouco decidir o que realmente quer ser.


A questão é que o filme não tem coragem de seguir integralmente pelo caminho do terror e acaba cometendo o erro de tentar equilibrar suas sequências visualmente perturbadoras com um drama superficial. A proposta ousada e empolgante de contar a história de um vilão por meio do body horror (terror corporal) acaba se desfazendo como lama diante das escolhas narrativas da produção. Esse subgênero do terror explora a manipulação, a transformação e a destruição do corpo humano sob diferentes perspectivas. Em vez de se concentrar em monstros, entidades sobrenaturais ou medos psicológicos, o body horror coloca o corpo no centro do horror, provocando reações físicas e emocionais intensas. Entre suas principais características estão as deformações e mutações corporais, frequentemente acompanhadas de uma profunda crise de identidade do protagonista.


Cara-de-Barro
'Cara-de-Barro' — Foto: Divulgação/Warner.

É possível perceber resquícios das ideias de Flanagan, principalmente na possibilidade de utilizar o horror para discutir questões sociais. O conceito de horror social, trabalhado pela pesquisadora Laura Cánepa, permite compreender uma vertente do cinema de terror que mobiliza as convenções do gênero para expor desigualdades, problemas e contradições estruturais da sociedade. No caso de Cara-de-Barro, uma das possibilidades mais interessantes seria explorar a obsessão pela aparência e a maneira como a indústria do entretenimento transforma o corpo em mercadoria. Algo semelhante ao que vemos em A Substância, por exemplo. Afinal, Matt Hagen é um ator cuja identidade e cujo valor social estão diretamente ligados à sua aparência física. Sua transformação, portanto, poderia servir não apenas como fonte de repulsa visual, mas também como uma metáfora para as exigências cruéis impostas àqueles que vivem sob os holofotes.


Entretanto, o ritmo acelerado da montagem logo no início, aparentemente preocupado em apresentar rapidamente a história de Matt Hagen — personagem que aqui reúne elementos das duas primeiras versões do Cara-de-Barro nos quadrinhos —, acaba se tornando um dos principais problemas do filme. Ao avançar tão depressa pelos acontecimentos, a narrativa deixa de construir um drama mais consistente e um estudo de personagem capaz de dar peso às transformações físicas e psicológicas do protagonista. O filme parece ter medo de permanecer tempo suficiente com Matt para que possamos compreender sua deterioração. E isso é especialmente frustrante em uma história cujo potencial está justamente em acompanhar a perda gradual daquilo que torna alguém humano.


Claro, nem tudo é ruim no longa. A atuação de Tom Rhys Harries exala carisma, e o ator demonstra empenho ao interpretar um homem cuja vida toma rumos cada vez mais desesperadores. Mesmo quando o roteiro não oferece a profundidade necessária, Harries consegue conferir personalidade ao personagem, tornando palpáveis seus conflitos e sua deterioração. Além disso, as sequências de body horror são tensas a ponto de fazer você querer desviar o olhar da tela. A fotografia também é interessante, embora a construção visual da cidade entregue uma Gotham menos marcante e mais genérica do que estamos acostumados a ver nas adaptações audiovisuais.


É justamente quando abraça o grotesco que Cara-de-Barro demonstra do que poderia ser capaz. Em seus melhores momentos, o filme remete a obras como Coringa, de Todd Phillips, e Darkman, de Sam Raimi, além de O Homem Sem Sombra e Os Olhos Sem Rosto. São referências que dialogam com a deterioração física e/ou com a perda da identidade e a maneira como a sociedade enxerga aqueles que deixam de corresponder a determinados padrões de aparência. Quando a produção explora a deformação de Matt e a instabilidade de seu corpo, consegue produzir imagens genuinamente perturbadoras, que testam a sensibilidade do espectador.


Cara-de-Barro
'Cara-de-Barro' — Foto: Divulgação/Warner.

Nessas sequências, a direção de James Watkins demonstra maior eficiência ao criar tensão e desconforto. A violência gráfica, combinada ao uso de próteses e efeitos práticos, confere materialidade às transformações do protagonista, fazendo com que o horror não dependa apenas de efeitos digitais ou de sustos previsíveis. Os enquadramentos contribuem para essa sensação ao aproximar a câmera do corpo e de suas deformações, colocando o espectador diante de imagens que dificilmente seriam tão impactantes se fossem filmadas à distância. É nesses momentos que o longa finalmente parece compreender a força de sua própria premissa.


O problema é que esses acertos aparecem de maneira pontual, sem que o restante da narrativa consiga acompanhá-los. O filme até apresenta ideias interessantes sobre identidade, aparência e degradação física, mas logo parece ansioso para avançar à próxima etapa da trama. Com isso, aquilo que poderia se transformar em uma experiência de terror corporal mais radical acaba reduzido a um conjunto de sequências grotescas inseridas em uma narrativa relativamente convencional. O roteiro parece confiar que as transformações de Matt serão suficientes para sustentar o horror, quando o que realmente falta é desenvolver as consequências emocionais, psicológicas e sociais dessas mudanças.


Há sim o que elogiar em Cara-de-Barro, desde o carisma de Tom Rhys Harries até o potencial de sua proposta visual. É louvável que a DC tenha apostado em um filme de terror centrado em um de seus vilões, buscando uma abordagem diferente daquela que normalmente domina as produções de super-heróis. Ainda assim, é frustrante perceber como o longa nunca chega a ser tão bom quanto poderia. A mistura entre romance e horror, acaba se tornando superficial e previsível, sobretudo nos minutos finais, quando a narrativa poderia investir mais na intimidade entre Matt Hagen e Caitlyn e explorar a tensão entre o homem que ele foi e o monstro em que está se transformando.


Cara-de-Barro
'Cara-de-Barro' — Foto: Divulgação/Warner.

Em suma, Cara-de-Barro é um filme de boas ideias que não encontra coragem ou tempo para desenvolvê-las plenamente. Quando aposta no horror corporal, entrega momentos perturbadores e demonstra o potencial de uma abordagem diferente para o universo da DC. Quando tenta equilibrar essas imagens com um drama apressado e uma narrativa convencional, porém, perde boa parte de sua força. O grotesco está lá, a atuação de Harries sustenta o protagonista e a premissa oferece inúmeras possibilidades. Só faltou transformar tudo isso em um filme que tivesse a mesma ousadia e poder de seu personagem.


Para quem só se importa com números:

Nota- 6/10.


Ficha Técnica:

Título Original: Clayface

País de Origem: Estados Unidos

Roteiro: Mike Flanagan, Hossein Amini

Direção:  James Watkins

Duração: 109 min.

Classificação: 18 anos.


Elenco:

Tom Rhys Harries

Naomi Ackie

Ruby Sear

Eddie Marsan

Max Minghella

Joshua James

Daniel Betts

Nancy Carroll

Sam Hazeldine

David Dencik

Wil Coban

Joana Ribeiro

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