Crítica | Lanternas – 1ª Temporada (2026)

E todo aquele que tentar há de penar, quando o Lanterna Verde adaptar…
Por Igor Biagioni Rodrigues.

Contém spoilers!
Lá em 2011, os fãs do Lanterna Verde viram seu mundo desabar com a tenebrosa versão em live-action dirigida por Martin Campbell e estrelada por Ryan Reynolds como Hal Jordan. O estrago foi tanto que, durante anos, todo o universo do Lanterna Verde ficou na geladeira (e, para quem acompanha os Lanternas, peço perdão por essa péssima analogia) das adaptações. Porém, com o surgimento do DCU, comandado por James Gunn e Peter Safran, os fãs puderam voltar a ter esperanças, pois uma série liderada por um time de renome (Damon Lindelof, Chris Mundy e Tom King) foi anunciada. Mas, com o avanço da produção, a divulgação dos trailers e, finalmente, a exibição da série em horário nobre da HBO, fica a pergunta: será que a espera valeu a pena ou só recebemos mais uma produção decepcionante do DCU?
A trama acompanha Hal Jordan, um experiente Lanterna Verde interpretado por Kyle Chandler, e John Stewart, um novo recruta da Tropa dos Lanternas Verdes vivido por Aaron Pierre. Juntos, eles vão investigar um assassinato na pequena cidade de Rushville, no coração dos Estados Unidos, mas o que inicialmente parece ser um caso terrestre acaba revelando conexões com uma ameaça de escala cósmica. Em meio à investigação, o veterano Hal Jordan também precisa assumir a responsabilidade de preparar o jovem Stewart para enfrentar os desafios de integrar a Tropa. Ou seria de substituí-lo?

Infelizmente, o DCU vem se tornando cada vez mais um projeto medíocre. Tirando o bom Superman (2025), as outras produções que compõem esse universo — Comando das Criaturas, a segunda temporada de Pacificador e Supergirl — vêm deixando a desejar. E Lanternas se torna mais um nome nessa lista de decepções. Não me entendam mal: a ideia de uma investigação policial com ares de thriller rural, ambientada na Terra e aos moldes de True Detective, é interessante e subversiva. O problema surge quando a série não consegue inserir essa proposta na mitologia dos Lanternas, mas faz justamente o contrário: espreme toda essa lore em um drama policial que, convenhamos, não é nem um pouco interessante.
O fato é que a série não consegue se sustentar em nenhuma de suas propostas. O drama policial não funciona por conta de uma construção narrativa vazia, com personagens secundários entrando e saindo de cena de maneira conveniente e pistas sobre os mistérios sendo apresentadas sem muito sentido. Além disso, a decisão de criar dois mistérios em cada uma das linhas temporais (quem é o Caçador Cósmico em 2016 e quem matou Hal Jordan em 2026) acaba prejudicando a narrativa. Ao colocar o clímax da temporada no meio dela, a série entrega um desfecho com soluções pouco interessantes, em um episódio que mais parece um epílogo do que um verdadeiro encerramento.
Pelo lado da ficção científica de super-heróis, a série também falha ao não entregar todo o escopo que a proposta merecia (e não usemos a limitação orçamentária como desculpa, tá?). Essa tentativa de manter tudo mais pé no chão faz com que a produção seja visualmente pobre, apostando naquela fotografia dessaturada, tão comum em produções da HBO, para demonstrar seu suposto “tom adulto”. Os construtos dos Lanternas são utilizados de maneira tímida, enquanto a dimensão cósmica da mitologia desse universo é explorada da forma mais convencional possível: por meio de citações. Para completar, a série subaproveita um dos maiores vilões da DC Comics, que nunca foi adaptado de maneira realmente decente: Sinestro.

Mas nem tudo é de se jogar fora. O elenco da série é incrível, principalmente Kyle Chandler e Aaron Pierre, que parecem ter nascido para interpretar seus personagens. A dinâmica entre os dois é sensacional, e seus diálogos afiados e seu humor ácido são um deleite. Há uma preocupação evidente com a construção dos protagonistas, assim como com a maneira pela qual a narrativa apresenta os acontecimentos do passado que os moldaram, como vemos nos episódios 3 e 7. O resultado são personagens complexos, com uma psique que se destaca dentro do audiovisual de superaventura.
A série também aborda questões raciais de maneira bastante explícita, especialmente no terceiro episódio. E não vejo nenhum problema nisso; pelo contrário, essa discussão é necessária para a construção de John Stewart. Afinal, o personagem surgiu assim, tanto nas páginas dos quadrinhos, em Green Lantern #87, quanto nos bastidores de sua criação, pelas mãos de Denny O’Neil e Neal Adams. Entretanto, acredito que a equipe poderia ter trabalhado esse assunto de maneira mais orgânica. Não considero a abordagem desnecessária, mas o nível de exposição do discurso acaba sendo excessivo. A mesma equipe, por exemplo, trabalhou questões semelhantes de maneira mais interessante em Watchmen (2019).

Por outro lado, a série também acerta ao abordar os problemas psicológicos e a depressão como parte do legado da família Jordan, explorando a maneira como Hal lida com essa herança e continua se agarrando à vida. A metáfora da bola de golfe, no sétimo episódio, é particularmente interessante. Além disso, a ideia de trabalhar o medo não como algo que deve ser destruído ou negado, mas como algo que precisa ser enfrentado e carregado, é um dos pontos mais interessantes da temporada. Todo o arco de John Stewart e sua relação com o medo e com um futuro que lhe foi imposto, aliás, representa talvez a melhor ideia da série.
Porém, nem mesmo o carisma dos atores e a excelente construção e interação dos protagonistas são suficientes para elevar a produção a um patamar acima do mediano. O sucesso de Lanternas é inegável, e uma nova temporada provavelmente virá. Espero que ela brilhe mais, vá além de temáticas interessantes e se estenda a uma construção narrativa realmente cativante, para que os Lanternas e sua lore saiam de vez dessa noite densa.
Para quem só se importa com números:
Nota - 6/10.
Ficha Técnica:
País de Origem: Estados Unidos
Desenvolvimento: Chris Mundy, Damon Lindelof, Tom King
Classificação: 16 anos
Duração: 8 episódios de aproximadamente 57 minutos.
Elenco:
Kyle Chandler,
Aaron Pierre
Kelly Macdonald
Garret Dillahunt
Poorna Jagannathan
Jason Ritter
J. Alphonse Nicholson
Chris Coy
Cary Christopher
Laura Linney






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