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Crítica | El Camino: A Breaking Bad Film (2019)

  • Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
    Igor Biagioni Rodrigues
  • 20 de jan.
  • 5 min de leitura

O Epílogo de Breaking Bad

Por Igor Biagioni Rodrigues.

El Camino: A Breaking Bad Film
Pôster de "El Camino: A Breaking Bad Film"- Netflix/Reprodução.

Contém spoilers.


Vince Gilligan é o mestre do improvável: quando você acha que ele vai fazer algo, ele vai lá e faz exatamente o oposto. Breaking Bad é uma das séries mais importantes da história da TV estadunidense, uma produção que elevou as séries televisivas ao mesmo patamar de qualidade do cinema. Além disso, a série beira a perfeição. Não é à toa que, quando anunciaram Better Call Saul, muita gente acreditava que seria um spin-off desnecessário e que jamais sairia da sombra de sua série-mãe. Mas Vince Gilligan é Vince Gilligan, e Better Call Saul não só trilhou seu próprio caminho como também se tornou melhor que Breaking Bad (ok, deixarei para outro momento o debate sobre essa “polêmica” opinião).


O ponto a que quero chegar é que o que se esperava de El Camino, tanto pelo título, quanto pelo final de Jesse na série e pelo início do filme, que começa com uma conversa entre Pinkman (Aaron Paul) e Mike (Jonathan Banks), era que o longa fosse um road movie (gênero cinematográfico focado em uma jornada física, geralmente por estrada, onde o deslocamento serve como metáfora para uma transformação interna ou autodescoberta dos personagens). Mas o que Gilligan faz é algo totalmente diferente do esperado.


Após escapar do cativeiro em que era mantido por uma gangue neonazista, Jesse Pinkman está em fuga, tentando deixar para trás o passado traumático e encontrar uma chance de recomeçar. Enquanto é perseguido pela polícia e assombrado pelas lembranças de Walter White e de todos os crimes cometidos, Jesse embarca em uma jornada intensa e silenciosa por redenção e liberdade.


Em vez de criar uma trama de fuga em um road movie, Gilligan começa o filme exatamente de onde a série parou, lá em 2013, com Jesse dirigindo seu Chevrolet El Camino. Mas, diferentemente do que acreditávamos ao final da série, ele não está sem rumo: vai diretamente para a casa de seus amigos Badger (Matt Jones) e Skinny Pete (Charles Baker). Logo de cara, o filme já estabelece o tom a que se propõe: a execução de um plano de fuga de Jesse, após um flashback que mostra que Todd possuía muito dinheiro escondido, intercalado com outras lembranças de seu cativeiro que criam pequenos retcons (recurso narrativo que altera fatos estabelecidos anteriormente em uma obra de ficção) da série.


Jesse Pinkman
Aaron Paul como Jesse Pinkman em "El Camino: A Breaking Bad Film"-Reprodução.

A narrativa do filme é conduzida como um episódio de Breaking Bad: lenta, bem trabalhada e cheia de atenção aos detalhes, só que com menos violência e uma ausência de afobação que não esperávamos de Jesse. Isso se deve à sua evolução como personagem, que, após ter comido o pão que o diabo amassou, tenta resolver as coisas de maneira mais inteligente, usando a violência apenas como último recurso. Aaron Paul foi descoberto e teve sua carreira alavancada justamente por causa de Jesse Pinkman, e nunca conseguiu desvincular sua imagem profissional desse papel. E, bom, como Pinkman, Aaron Paul está brilhante! Anos depois de ter interpretado o personagem, parece que foi ontem que Paul gravou Breaking Bad: seu físico, seus gestos, suas expressões e toda a construção de Jesse continuam excelentes, como se El Camino tivesse sido filmado na mesma época da série.


Tecnicamente falando, o filme é realmente um desbunde, assim como Breaking Bad era, e Better Call Saul evoluiu. Não é à toa que o diretor de fotografia aqui, Marshall Adams, é o mesmo da série de Saul Goodman. Os planos inventivos, somados a uma fotografia fria , que, mesmo quando apresenta cores quentes, as mantém em tons pastéis que remetem ao pessimismo que o longa carrega. (Destaque para a cena em plongée em que vemos Jesse, ou vários Jesses, em time-lapse desmontando o apartamento de Todd.)


El Camino: A Breaking Bad Film
Frame do time-lapse de Jesse desmontando o apartamento de Todd- Reprodução.

Um ponto negativo é justamente a relação nada sutil com Breaking Bad. Diferentemente da série prelúdio de Saul, El Camino não tem tempo para trabalhar as referências à série original de maneira diluída e orgânica, entregando diversas participações e alusões em um filme que mais parece uma prorrogação desnecessária de Breaking Bad, repleto de fanservices. (Mas toda a sequência envolvendo a participação de Robert Forster como Ed é sensacional: o toque de humor em uma situação desesperadora, os diálogos com um timing excelente e a câmera praticamente estática são de um bom gosto estético e narrativo que só Gilligan poderia retratar.)


Claro, é um longa que exige que o espectador tenha acompanhado os 62 episódios da série, e nem poderia ser diferente. Mas a questão é que ele não entrega nada realmente inovador.


Infelizmente, acredito que, diferentemente de Better Call Saul, El Camino realmente não precisava existir. Uma narrativa tem como base levar os personagens de um ponto A a um ponto B (não necessariamente no sentido físico), mas, em El Camino, nos despedimos de Jesse praticamente da mesma forma que já havíamos nos despedido dele em Breaking Bad.


Jesse e Jane Breaking Bad
Cena de "El Camino: A Breaking Bad Film"- Netflix/Reprodução.

No fim, o título não é sobre o carro, ou sobre a estrada literal que Jesse percorre, mas sim sobre seu próprio caminho. Numa emotiva cena final, vemos uma conversa dele com Jane (Krysten Ritter), em que ele fala que gosta da filosofia de deixar o universo te levar para onde ele quer, e ela questiona dizendo que é melhor você mesmo trilhar seu próprio caminho. O título, portanto, não aponta para um trajeto físico, mas para o desvio emocional de Jesse ao revisitar memórias e relacionamentos que nunca deixou de carregar. Essa sequência, carregada de silêncio, tensão e sensações inacabadas, sugere que o verdadeiro caminho que Jesse percorre é interno: um retorno a si mesmo.


E é aí que o filme falha e triunfa: falha ao não apresentar algo realmente novo, mas triunfa ao reafirmar que o epílogo de Breaking Bad não é uma nova aventura, e sim o fim simbólico dessa conversa interrompida, não só com Jane, mas com Walter e Mike, pois ele realmente não pode fazer a coisa certa como Mike disse, mas ele não precisa esperar sua vida toda para fazer algo extraordinário como Walter diz. Em suma temos uma despedida tardia e melancólica do personagem que acompanhamos e amamos por tantas temporadas.


Para quem só se importa com números:

Nota- 7/10.


Ficha Técnica:

Título Original: El Camino: A Breaking Bad Film

País de Origem: Estados Unidos.

Roteiro:  Vince Gilligan

Direção:  Vince Gilligan

Classificação: 16 anos.

Duração: 122 min.


Elenco:

Aaron Paul como Jesse Pinkman

Jesse Plemons como Todd Alquist

Krysten Ritter como Jane Margolis

Charles Baker como Skinny Pete

Matt Jones como Badger Mayhew

Scott Shepherd como Casey 

Scott MacArthur como Neil Kandy

Tom Bower como Lou Schanzer

Kevin Rankin como Kenny

Larry Hankin como Old Joe

Tess Harper como Diane Pinkman

Marla Gibbs como Jean

Brendan Sexton III como Kyle

Johnny Ortiz como No-Doze

Robert Forster como Ed Galbraith 

Jonathan Banks como Mike Ehrmantraut

Bryan Cranston como Walter White



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