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Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025)

  • Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
    Igor Biagioni Rodrigues
  • há 18 horas
  • 4 min de leitura

Abra o seu coração e sinta!

Por Igor Biagioni Rodrigues.

Hamlet: A Vida Antes de Hamnet
"Hamlet: A Vida Antes de Hamlet"- Reprodução/Focus

Contém spoilers!


Adaptação do livro de Maggie O’Farrell, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet marca a volta de Chloé Zhao após dirigir Eternos (longa do MCU que acabou não fazendo bem para a carreira da cineasta). O filme em questão é extremamente sentimental, e sua força vem do grande trabalho de direção de Zhao e da atuação de Jessie Buckley.


Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, acompanhamos um episódio trágico na vida de William Shakespeare (Paul Mescal) e de sua esposa Agnes (Jessie Buckley). Ambientada no século XVI, a narrativa mostra o casal se conhecendo, se apaixonando, casando, construindo uma família e enfrentando a devastadora perda de seu filho de 11 anos, Hamnet, vítima de uma das epidemias que assolavam a época. A história, inspirada na vida doméstica do dramaturgo, é contada sobretudo a partir da perspectiva de Agnes, que se torna a principal voz da narrativa ao expressar o profundo luto provocado pela morte precoce do filho, enquanto precisa lidar com um marido que transforma essa dor em uma expressão artística que viria a se tornar eterna.


O enredo é inteligente ao abandonar a imagem distante e quase intocável do “gênio” Shakespeare para apresentar um artista talentoso profundamente marcado por suas experiências pessoais. Ao explorar temas como morte, perda e memória, o filme acompanha o cotidiano de uma família vivendo em uma pequena vila inglesa, revelando tanto os momentos de afeto quanto as dores que moldam suas vidas. Nesse processo, a obra sugere como essa tragédia íntima teria influenciado emocionalmente o dramaturgo e se tornado uma das inspirações para a criação de Hamlet, focando principalmente em mostrar como Agnes vivia o dia a dia como mãe e esposa à sombra do famoso escritor.


Hamlet: A Vida Antes de Hamlet
"Hamlet: A Vida Antes de Hamlet"- Reprodução/Focus

Existe um tom etéreo no filme, quase místico e até mesmo ligado a fantasmagoria (foi uma forma de teatro de terror do final do século XVIII e XIX, precursora do cinema, que usava lanternas mágicas para projetar imagens fantasmagóricas de fantasmas e esqueletos em salas escuras). Grande parte disso vem da personagem Agnes, que ganha uma forte representação ocultista. A primeira vez que a vemos, ela está deitada em posição fetal, e o enquadramento em ângulo zenital (que posiciona a câmera a 90° diretamente acima do objeto ou personagem, olhando para baixo) nos mostra a personagem rodeada de verde, em um simbolismo maternal entre ela e a natureza. Esse aspecto ganha ainda mais peso com o uso de músicas em vocalizes (técnica de canto que consiste em cantar melodias, escalas ou arpejos utilizando vogais ou fonemas, sem o uso de palavras).


Tecnicamente, o filme é um grande trabalho de direção de Chloé Zhao. Sua decupagem é impressionante, utilizando subenquadramentos (enquadrar personagens, objetos ou cenários dentro de um plano inserido em outro plano, como através de uma janela), câmera na mão e planos abertos em ambientes fechados, demonstrando a tristeza dos personagens, além de planos mais fechados na natureza, representando momentos de alegria. A direção de fotografia de Łukasz Żal também é bastante inteligente, composta por fortes tons de verde e azuis dessaturados que contrastam com o vermelho do vestido de Agnes, colocando-a sempre em destaque nas cenas.


Hamlet: A Vida Antes de Hamlet
"Hamlet: A Vida Antes de Hamlet"- Reprodução/Focus

É inegável o impacto das atuações nesse longa, principalmente de Jessie Buckley (Paul Mescal também está bem). Suas cenas dramáticas são sentidas, mas o peso do luto é diluído devido a transições temporais que fazem com que algumas cenas percam seu impacto. O filme tenta o tempo todo emocionar, caindo naquele erro clássico: se tudo é dramático, nada é dramático. Há ainda cenas que se estendem mais do que deveriam, enquanto outras que poderiam ter maior duração acabam sendo cortadas rapidamente. Isso cria uma sensação de arrasto em parte da narrativa. Além disso, apesar de o núcleo familiar ser bem construído, a sociedade ao redor, assim como a própria Londres, que deveria ter uma função importante na formação dos personagens, acaba sendo pouco desenvolvida.


Porém, se há um momento em que o longa alcança seu ápice emocional, beirando a catarse, é em seus minutos finais. A cena da peça, em que Agnes vê sua dor sendo transformada em arte e compartilhada com o mundo através do teatro, cria um final esplendoroso e finalmente alcança a emoção que o filme passa todo o tempo tentando provocar.


Em suma, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um filme que se prolonga além do necessário e peca por excessos calculados na tentativa de emocionar. Ainda assim, quando finalmente acerta o tom, entrega uma impactante mensagem: a de que dor e arte podem, sim, caminhar juntas.


Para quem só se importa com números:

Nota- 7/10


Ficha Técnica:

Título original: Hamlet

País de origem: Estados Unidos e Reino Unido

Roteiro: Chloé Zhao, Maggie O’Farrell (baseado em romance de Maggie O’Farrell)

Direção: Chloé Zhao

Duração: 126 min.

Classificação: 14 anos


Elenco:

Jessie Buckley

Paul Mescal

Emily Watson

Jacobi Jupe

Joe Alwyn

David Wilmot

Bodhi Rae Breathnach

Olivia Lynes

Noah Jupe

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