CrÃtica | Valor Sentimental (2025)
- Igor Biagioni Rodrigues
- há 17 horas
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Atualizado: há 16 horas
A Arte como cura…
Por Igor Biagioni Rodrigues.

Valor Sentimental é um filme que utiliza metalinguagem, uma montagem que por vezes emula a dinâmica de uma peça teatral e um olhar sensÃvel sobre relações humanas e familiares, refletindo também sobre como a arte atravessa essas relações. Tudo isso, somado a excelentes atuações, faz com que o longa se destaque como um dos melhores filmes de 2025.
A história explora a relação turbulenta entre um pai e suas duas filhas, revelando feridas familiares que se arrastam por décadas. No centro da narrativa está Gustav, um diretor de cinema renomado, carismático, mas emocionalmente distante de Nora e Agnes. Decidido a retornar aos holofotes, ele inicia a produção de um novo filme, um projeto profundamente pessoal, e convida Nora, uma atriz de teatro já consolidada, para assumir o papel principal. Quando ela recusa a proposta, Gustav oferece o papel a Rachel Kemp (Elle Fanning), uma jovem e promissora estrela de Hollywood que logo percebe ter se envolvido, sem querer, em um drama familiar extremamente Ãntimo, tanto dentro quanto fora das telas. Nesse cenário, as irmãs são obrigadas a confrontar a complicada relação que mantêm com o pai, enquanto a presença da atriz americana passa a ocupar o centro dessa delicada dinâmica familiar.
O filme se apoia narrativamente em cinco personagens: Gustav, Nora, Agnes, Rachel e a casa. Essa estrutura faz com que todas as temáticas se entrelacem em um roteiro muito bem construÃdo, capaz de tornar o longa levemente cômico, consistentemente triste e extremamente, perdoem-me o termo, sentimental.

Gustav, vivido brilhantemente por Stellan SkarsgÃ¥rd, é um renomado diretor de cinema, mas um pai ausente. Não se trata de alguém artisticamente incompreendido: ele é egocêntrico, extremamente inteligente e plenamente consciente de seu próprio talento. O que ele não sabe é lidar com suas filhas, pois demonstra grandes dificuldades em se relacionar com a famÃlia. Gustav aparece, permanece por um tempo, desaparece e, quando retorna, deseja controlar a vida de todos, assim como um diretor controla um set de filmagem. Por mais que tente se aproximar das filhas, a única forma que encontra para se expressar é através da arte.
Durante a infância de Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), ela participou de um filme dirigido por Gustav e, naquele perÃodo, recebeu toda a atenção e o afeto que sempre desejou, algo que jamais voltou a experimentar. Por isso, a arte acabou se tornando para ela uma fonte de dor. Gustav consegue interagir melhor com seu neto, filho de Agnes, mas novamente recorre ao cinema para isso: seja presenteando-o com DVDs, seja ensinando técnicas de filmagem. Quando sugere que o garoto deveria participar de seu novo filme, essa atitude acaba sendo a gota d’água para Agnes.
Com Nora (Renate Reinsve), as coisas são um pouco diferentes, mas não menos complicadas. Nora é uma atriz de teatro, uma adulta perdida na vida, incapaz de manter um relacionamento amoroso estável. Ela gosta de atuar justamente por poder viver a vida de outras pessoas, utilizando a arte como forma de escapismo. Gustav despreza o teatro e não faz questão de assistir às peças da filha. Nora, por sua vez, responde na mesma moeda: sequer se interessa em ler o roteiro do filme de seu pai.
Rachel, por sua vez, é uma atriz hollywoodiana renomada com quem Gustav se relaciona melhor, justamente por ambos pertencerem ao mesmo meio artÃstico. No entanto, à medida que tenta interpretar sua personagem no filme de Gustav, Rachel se vê perdida diante de alguém que não consegue compreender plenamente. Quando questiona o diretor sobre a personagem, ele responde apenas perguntando o que ela sente em relação à cena. Permitam-me abrir um parêntese: essa resposta é brilhante. Muitas vezes buscamos significados objetivos na arte, quando, na verdade, ela existe sobretudo para ser sentida. Ao final, Rachel percebe que se encontra no meio de um drama familiar que não lhe pertence.
E a casa? A casa funciona como uma representação fÃsica da memória e do relacionamento dessa famÃlia, motivo pelo qual Gustav decide utilizá-la como principal locação de seu filme. Seus cômodos e corredores escondem segredos, ressentimentos e medos acumulados ao longo dos anos. As paredes apresentam rachaduras que, de maneira simbólica e quase literal, refletem o estado emocional daquela famÃlia.

Através de Gustav, o filme também abre espaço para um debate interessante sobre o próprio futuro do cinema na era do streaming. Em determinado momento, surge uma discussão sobre financiamento e sobre a crescente dependência das plataformas digitais para viabilizar projetos autorais. O longa sugere uma tensão entre o cinema como arte pessoal, quase artesanal, e a lógica industrial e algorÃtmica das plataformas, levantando questionamentos sobre até que ponto histórias Ãntimas ainda encontram espaço em um mercado cada vez mais orientado por métricas de audiência.
Tecnicamente, o filme também se destaca. A mise-en-scène (termo que designa a organização visual de todos os elementos dentro do quadro, como posicionamento de atores, cenários, iluminação e movimentos de câmera) é usada com grande inteligência. Há um cuidado evidente na maneira como os personagens ocupam os espaços da casa: Gustav frequentemente domina a geometria do plano, ocupando posições centrais e imponentes, enquanto as filhas se colocam nas bordas e laterais do enquadramento, como se a própria composição da imagem revelasse uma disputa silenciosa de poder e presença.
A montagem do filme também merece destaque por sua sensibilidade rÃtmica. Em diversos momentos, a narrativa é interrompida por longos fade outs, que funcionam quase como o fechamento de atos em uma peça teatral. Esses cortes suaves não servem apenas como transição temporal, mas como pausas dramáticas que permitem ao espectador assimilar emocionalmente o que acabou de acontecer em cena. Esse recurso reforça a dimensão teatral já presente no filme e cria um ritmo contemplativo, em que cada cena parece pedir um breve tempo de digestão antes que a história avance.

O pôster do filme também traduz visualmente essa proposta temática. A composição fragmentada apresenta os rostos dos personagens sobrepostos e entrelaçados, criando um mosaico em que os limites entre um e outro parecem se dissolver. Essa escolha estética sugere que as identidades e emoções desses indivÃduos estão profundamente conectadas, quase refletidas uns nos outros. As personagens parecem habitar o mesmo espaço visual, como se suas dores, ressentimentos e memórias se contaminassem mutuamente. A montagem das imagens no cartaz emula justamente aquilo que o filme dramatiza: cada personagem acaba espelhando, consciente ou inconscientemente, as atitudes, traumas e comportamentos dos demais. Assim, o pôster sintetiza a ideia central da obra, a de que, dentro de uma famÃlia, os indivÃduos muitas vezes se refletem uns nos outros, repetindo padrões e encenando, à sua própria maneira, os gestos que herdaram.
Ao final, Valor Sentimental revela-se um filme que aborda múltiplas camadas emocionais e temáticas: crise artÃstica, luto, trauma geracional, a metalinguagem do próprio cinema, o ressentimento entre irmãs, o pânico de performance de artistas, adultério e, sobretudo, as marcas deixadas por uma paternidade falha. É uma obra que entende a arte não apenas como expressão, mas também como tentativa de reconciliação, um espaço onde memórias, dores e afetos podem finalmente encontrar alguma forma de cura ou, ao menos, de entendimento.
Para quem só se importa com números:
Nota- 9/10.
Ficha Técnica:
TÃtulo Original: Affeksjonsverdi
PaÃs de Origem: Noruega, França, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Reino Unido
Roteiro: Â Joachim Trier, Eskil Vogt
Direção: Joachim Trier
Classificação: 14 anos
Duração: 133 min.
Elenco:
Renate Reinsve como Nora
Stellan Skarsgård como Gustav
Inga Ibsdotter Lilleaas como Agnes
Elle Fanning como Rachel Kemp
Anders Danielsen Lie como Erik
Jesper Christensen como Victor
Lena Endre como Astrid
Cory Michael Smith como Daniel
Catherine Cohen como Rebecca


