Crítica | Uma Batalha Após a Outra (2025)
- Igor Biagioni Rodrigues

- há 3 horas
- 4 min de leitura
Um superestimado filme de Paul Thomas Anderson
Por Igor Biagioni Rodrigues

Ficar em cima do muro é escolher um lado. Talvez tenha faltado alguém dizer isso a Paul Thomas Anderson, já que, em Uma Batalha Após a Outra, o diretor satiriza tanto a esquerda quanto a direita, posicionando-se como alguém acima desses polos. Mas isso é superioridade ou apenas um posicionamento covarde?
Em Uma Batalha Após a Outra, Leonardo DiCaprio interpreta Bob Ferguson, um antigo revolucionário que abandona sua aposentadoria para encarar a missão mais importante de sua vida: salvar sua filha. Depois de passar a juventude envolvido com um grupo guerrilheiro, Bob agora lida com uma existência marcada por frustrações e arrependimentos. Sua rotina é abruptamente abalada quando um dos inimigos mais perigosos de seu passado, desaparecido por 16 anos, reaparece e sequestra a garota. Diante da urgência da situação, ele reúne antigos companheiros de luta e parte para uma corrida implacável contra o tempo, disposto a enfrentar qualquer obstáculo para resgatar quem mais ama.

De Magnólia a Licorice Pizza, PTA construiu uma filmografia amplamente aclamada. No entanto, Uma Batalha Após a Outra tem sido um de seus trabalhos mais celebrados, ao menos no circuito de premiações e, desde seu lançamento, provocou reações bastante polarizadas: ou extremamente elogiado ou duramente criticado. O motivo para essa divisão parece estar na maneira como o diretor constrói uma narrativa que caricaturiza tanto a esquerda quanto a direita, partindo de uma perspectiva tipicamente estadunidense com a intenção de alcançar algo universal (afinal, existe esquerda nos Estados Unidos?). Para isso, Anderson utiliza a família como eixo universalizante de sua temática.
O problema é que essa estratégia acaba gerando uma falta de profundidade em vários aspectos, tanto narrativos quanto na construção de personagens. Se o filme questiona o nacionalismo, o ressurgimento do fascismo e de governos autoritários, também critica a ideia de “revolução pela revolução”, algo feito apenas pelo prazer, até mesmo sexual, como se observa na personagem Perfidia (Taylour Paige). A narrativa sugere que, apesar das causas nobres defendidas por esses ditos revolucionários, muitos acabam abandonando a família em prol de suas ideologias ou simplesmente seguem o fluxo como viciados, como ocorre com Bob, o personagem de DiCaprio.
Por mais que o elenco seja excelente e os atores extraiam o máximo de seus papéis, com DiCaprio criando um protagonista carismático, dramático e cômico, Sean Penn encarnando um vilão repugnante, Benicio del Toro entregando um personagem extremamente cômico em meio ao caos e Chase Infiniti, que interpreta Willa, filha de Bob, surgindo como uma agradável surpresa em um elenco repleto de estrelas, esses personagens acabam perdendo força à medida que se tornam cada vez mais caricaturais. Se Anderson já criou figuras complexas ao longo de sua filmografia, isso não acontece aqui. Conforme a narrativa avança, o humor passa a se sobrepor de maneira desequilibrada ao drama, e sua crítica social e política acaba soando vazia. Seria particularmente interessante ver mais do French 75 (a frente revolucionária da qual os personagens faziam parte no passado) que aparece apenas em um prelúdio inicial funcionando como um leve motor narrativo, mas que acaba se perdendo ao longo da história.

Ainda assim, os méritos devem ser atribuídos a quem realmente os merece: a parte técnica do filme. Trata-se de uma obra acelerada do começo ao fim, muito por conta de uma montagem dinâmica que utiliza cortes rápidos, planos abertos nas cenas de perseguição e até mesmo enquadramentos em point of view extremamente inventivos, especialmente em uma sequência de perseguição de carro que facilmente se destaca como o melhor momento do longa. Soma-se a isso a fotografia de Michael Bauman e a trilha sonora de Jonny Greenwood, que ajudam a orquestrar tecnicamente todo esse caos e estabelecem o tom energético da narrativa.
No fim das contas, Uma Batalha Após a Outra funciona melhor como um grande espetáculo de ação do que como um comentário político consistente. Como filme político, é curioso notar que o longa se revela um excelente filme de ação, mas não necessariamente um bom filme político. Ao tentar criticar os extremos ideológicos, ainda que acene discretamente para um campo mais à esquerda, a postura do filme acaba soando mais conservadora do que provocativa. E, ao buscar universalizar dilemas profundamente ligados à realidade dos Estados Unidos, a obra termina tratando essas questões com uma profundidade comparável à de um pirex: aparentemente robusta, mas essencialmente rasa.
Para quem só se importa com números:
Nota- 6/10.
Ficha Técnica:
Título Original: One Battle After Another
País de Origem: Estados Unidos
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Direção: Paul Thomas Anderson
Duração: 162 min.
Classificação: 16 anos
Elenco: Leonardo DiCaprio como Bob Ferguson
Sean Penn como Lockjaw
Benicio del Toro como Sensei
Regina Hall como Deandra
Teyana Taylor como Perfidia
Chase Infiniti como Willa Ferguson
Alana Haim como Ingrid
Wood Harris como Duane
Shayna McHayle como Shayna
Paul Grimstad como Paul
Dijon Duenas como Dijon
Tony Goldwyn como Steven Locke






Comentários