Crítica | Supergirl: Mulher do Amanhã
- Igor Biagioni Rodrigues

- há 2 dias
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A odisseia espacial de Ruthye e Supergirl
Por Igor Biagioni Rodrigues

Existem obras que já nascem com o status de clássicos instantâneos, e não é exagero afirmar que esse é o caso de Supergirl: Mulher do Amanhã. Com um roteiro magistral de Tom King, a arte deslumbrante da brasileira Bilquis Evely e as cores impecáveis de Mat Lopes, a HQ entrega uma verdadeira ópera espacial que discute vingança, moralidade, feminismo, paternidade, morte, vida e, acima de tudo, o que realmente significa ser um super-herói.
A história é narrada por Ruthye já idosa, que relembra a jornada iniciada em sua juventude quando parte em busca de vingança pelo assassinato de seu pai, um fazendeiro de pedras (sim, é exatamente isso), morto por Krem dos Montes Amarelos. Em sua caçada, Ruthye acaba encontrando Kara Zor-El (acompanhada de Krypto!) em um bar de um planeta iluminado por um Sol Vermelho, cuja radiação anula os poderes dos kryptonianos. É justamente por isso que a Supergirl está ali: para finalmente conseguir ficar bêbada e comemorar seu aniversário como uma pessoa comum.
Essa é apenas uma das muitas abordagens utilizadas por Tom King para revelar as camadas emocionais de Kara, transformando a HQ em um profundo estudo de uma personagem marcada pelo trauma, pela solidão e pela culpa. Aliás, é um enorme acerto da obra utilizar uma estrutura de road movie espacial para explorar sua psicologia. Embora seja um dos maiores símbolos de bondade do Universo DC, Kara convive constantemente com a culpa de ter sobrevivido à destruição de Krypton e com o peso de ser uma heroína em um universo que, muitas vezes, está longe de ser justo.

Inicialmente, Ruthye pretendia contratar um mercenário para matar Krem, oferecendo como pagamento uma espada extremamente valiosa. O plano, no entanto, dá errado quando o mercenário rouba a arma e é impedido por Supergirl. Sem alternativas, a garota tenta convencer Kara a executar sua vingança, mas a heroína se recusa e segue seu caminho. Ruthye, porém, não desiste e passa a acompanhá-la.
Humilhado por ter sido derrotado por uma Supergirl completamente bêbada, o mercenário une forças justamente com Krem para eliminar as duas. Sim, uma verdadeira "broderagem do mal", que infelizmente encontra ecos na própria realidade. Durante o confronto, Kara e Krypto, ainda sem seus poderes devido ao Sol Vermelho, ficam gravemente feridos, enquanto Krem foge levando a nave da heroína.
Após buscarem ajuda com um curandeiro local, descobrem que Krypto foi envenenado e está morrendo. A única forma de salvá-lo é descobrir qual veneno foi utilizado. É então que Supergirl decide unir forças com Ruthye. As duas embarcam em uma viagem (utilizando, inclusive, um transporte coletivo espacial) até encontrarem um planeta com Sol Amarelo, onde Kara poderá recuperar seus poderes antes de retomar a perseguição ao assassino.
É assim que começa uma jornada repleta de humor, ação, contemplação e momentos profundamente dolorosos, em uma narrativa que fala sobre vingança, perda, amadurecimento e, principalmente, sobre aprendizado.
A obra pode se tornar repetitiva justamente pelo aspecto da jornada das personagens que passam por diversos ambientes repetindo a mesma questão: a busca por Krem e os bandoleiros (grupo de assassinos/piratas espaciais - alguns usam roupas semelhantes a cangaceiros- ao qual o vilão se juntou). Porém, as temáticas abordadas nessas situações são interessantíssimas e, em sua maioria, de partir o coração, uma vez que retratam questões como preconceito, genocídio, paternidade e culpa do sobrevivente.
Não darei muitas explicações sobre cada um desses episódios para evitar spoilers de uma obra que merece ser descoberta quase às cegas. Ainda assim, é importante contextualizar que Tom King possui uma filha e que este quadrinho foi concebido, em grande medida, a partir de reflexões sobre sua relação com ela. Produzida durante a pandemia de COVID-19, a história absorve sentimentos de isolamento, luto, insegurança e impotência diante de um mundo que parecia escapar ao controle de todos. Por isso, sua jornada sobre solidão, autoconhecimento, culpa e perda adquire um peso emocional ainda maior, especialmente porque nunca abandona a ideia de que a bondade continua sendo uma escolha possível mesmo quando o universo parece indiferente ao sofrimento humano.
Essa perspectiva se manifesta diretamente na construção de Kara. Em vez de transformá-la em um ideal inalcançável de perfeição, Tom King lhe devolve humanidade. A heroína pode ser vulnerável sem deixar de ser poderosa, sensível sem ser fraca e compassiva sem abandonar sua força. Seus traumas não desaparecem, suas dores não são superadas por meio de grandes discursos inspiradores e suas dúvidas permanecem presentes ao longo de toda a narrativa. Ainda assim, ela continua escolhendo ajudar os outros.

É justamente nesse ponto que emerge uma das ideias mais belas da obra. Em determinado momento, Kara afirma que "é grande demais e nós somos pequenas demais", reconhecendo a vastidão quase incompreensível do universo e a limitação inevitável da experiência humana diante dele. A frase poderia ser interpretada como uma rendição ao fatalismo, mas Tom King segue por outro caminho. O reconhecimento de nossa pequenez não serve para justificar a passividade, e sim para reforçar a importância de cada gesto de compaixão. Se não podemos controlar o universo, ainda podemos controlar a forma como respondemos a ele. A grandeza moral de Kara nasce justamente dessa consciência: ela sabe que não pode salvar tudo, corrigir todas as injustiças ou impedir todas as tragédias, mas escolhe agir mesmo assim.
Há, portanto, um forte componente existencialista na obra. O universo apresentado por Tom King é profundamente indiferente ao sofrimento individual. A vida é marcada por perdas arbitrárias, encontros passageiros e eventos que frequentemente fogem ao controle dos personagens. No entanto, em vez de concluir que nada importa, a narrativa encontra significado precisamente na maneira como cada indivíduo decide enfrentar essa realidade. Kara insiste em ajudar desconhecidos, proteger inocentes e preservar sua compaixão não porque acredita que vencerá todas as batalhas, mas porque entende que essa é a única resposta verdadeiramente humana diante da indiferença cósmica.
A escolha de transformar Ruthye em narradora também reforça que esta não é apenas uma aventura espacial, mas uma história sobre memória e sobre a fragilidade da própria narrativa. O passado nunca aparece de forma objetiva; ele é reorganizado, filtrado e reconstruído pelo olhar de quem sobreviveu. Assim, Tom King constrói uma obra em que recordar também significa reinterpretar, transformando cada lembrança em um espaço de disputa entre aquilo que aconteceu e aquilo que escolhemos preservar.

É justamente aí que reside a genialidade de Supergirl: Mulher do Amanhã. Tom King nunca utiliza essas questões filosóficas como mero exercício intelectual. Elas surgem organicamente da jornada de Kara e Ruthye, fazendo com que discussões sobre trauma, vingança, culpa, memória e compaixão sejam experimentadas pelo leitor antes mesmo de serem compreendidas racionalmente. Em um mercado saturado por histórias de super-heróis preocupadas em ampliar universos compartilhados, esta HQ escolhe o caminho oposto: reduz a escala dos acontecimentos para ampliar a dimensão humana de sua protagonista. O resultado é uma obra que fala sobre alienígenas, dinossauros e viagens interestelares, mas que, paradoxalmente, nunca deixou de falar sobre humanidade.
Para quem só se importa com números:
Nota - 9/10.
Dados da HQ:
Histórias: Supergirl Woman of Tomorrow (2021-2022)
Roteiro: Tom King
Arte: Bilquis Evely
Cores: Mat Lopes (Matheus Lopes)
Editoria: Brittany Holzherr, Jamie S. Rich
Letras: Clayton Cowles
Tradução: Erick Garcia
Editora: DC Comics
Data original de publicação: agosto a novembro de 2021; janeiro a abril de 2022
Editora no Brasil: Panini Comics
Páginas: 208






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