Crítica | Los Angeles: Cidade Proibida (1997)
- João Gabriel Pinheiro Chagas
- há 20 horas
- 3 min de leitura
O neo-noir que desafiou “Titanic” no Oscar!
Por João Gabriel Pinheiro Chagas.

Dias atrás, navegando pelo Prime Video, me deparei com o filme "Los Angeles: Cidade Proibida" (1997), que, por incrível que pareça, eu nunca tinha assistido. Talvez tenha me passado batido o fato de ele estar no streaming, pois sabia que já constava no catálogo há tempos, mas a tag "indisponível em 11 dias" acendeu o sinal de alerta: "Por que não assistir agora, antes que saia do ar?". Pois foi o que fiz. Ao começar a assistir, a primeira coisa que se observa é que a obra não é apenas um exercício de estilo cinematográfico sobre a Era de Ouro de Hollywood (onde os filmes noir se consagraram), mas uma autópsia brutal da corrupção institucional, cujas entranhas envolvem a polícia, a máfia, a imprensa e o Judiciário. A ambiguidade predomina; nunca se tem certeza sobre quem, de fato, é "bandido" e quem é "mocinho". Sob a direção magistral de Curtis Hanson (que levou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado), o longa conseguiu o que parecia impossível na época: manter se relevante e aclamado em um ano dominado pelo gigantismo de "Titanic", que teve 14 indicações, com 11 prêmios, contra nove indicações e dois prêmios de “L.A.”. En quanto o épico de James Cameron levava as multidões às lágrimas, Hanson entregava um roteiro cirúrgico, denso e repleto de camadas.
Um elenco em estado de graça

O filme serviu como vitrine para um elenco estelar em sintonia absoluta. Kevin Spacey, Russell Crowe e Guy Pearce interpretam três detetives com bússolas morais distintas, forçados a colaborar em um cenário onde a linha entre a lei e o crime é quase inexistente. No centro desse turbilhão está Kim Basinger, cuja performance como Lynn Bracken lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Até hoje, críticos discutem se o prêmio de Basinger foi justo ou fruto do impacto visual de sua personagem, um simulacro proposital da atriz Veronica Lake. No entanto, sua capacidade de imprimir vulnerabilidade e dignidade a uma mulher presa em um sistema explorador justifica a escolha da Academia. Ela traz humanidade a um mundo de homens violentos. Talvez o ponto a ser discutido não seja ela ter levado o Oscar, mas algum dos atores do trio de protagonistas sequer ter sido indicado. É provável que a "competição interna" entre os três tenha pulverizado os votos dos membros da Academia, impedindo que um deles se destacasse numericamente para a indicação. O fato de nenhum dos três ter figura do na lista de Melhor Ator ou Coadjuvante naquele ano reforça a ideia de que o filme foi celebrado mais pelo seu conjunto técnico e direção do que pela força individual de seus protagonistas masculinos, o que, ironicamente, é o que sustenta a narrativa.
Da ficção ao escândalo real
Um dos pontos mais perturbadores da trama é a "Flor de Lótus", uma organização secreta que oferecia prostitutas submeti das a cirurgias plásticas para se parecerem com estrelas de cinema. Essa transformação de mulheres em "mercadoria de luxo" para satisfazer fetiches de poderosos cria um paralelo inevitável com as recentes revelações do caso Jeffrey Epstein. A exploração sistemática e o silêncio comprado por figuras da elite mostram que, embora o filme se passe nos anos 1950 e tenha sido produzido em 1997, a dinâmica do abuso de poder pouco mudou. Imprensa e Polícia: uma relação tóxica O filme também se destaca ao retratar a relação simbiótica e doentia entre a polí- cia e o jornalismo sensacionalista, representado pelo tabloide Hush-Hush. A troca de favores, a fabricação de heróis e a ocultação de crimes em troca de manchetes exclusivas antecipam a era das fake news e do espetáculo midiático-jurídico. "Los Angeles: Cidade Proibida" é uma ótima porta de entrada para quem tem interesse em conhecer as grandes obras do cinema noir produzidas entre os anos 1940 e 1950, como "Pacto de Sangue" (1944), "O Terceiro Homem" (1949) e "A Marca da Maldade" (1958). "O Terceiro Homem", inclusive, é um dos meus preferidos, e recomendo que se leia também o livro de Graham Greene que deu origem ao filme. Há uma versão da Coleção L&PM Pocket de boa qualidade e preço acessível.
*Texto originalmente publicado no Jornal da Cidade no dia 09/02/2026
Ficha Técnica:
País de Origem: Estados Unidos
Título Original: L.A. Confidential
Roteiro: Brian Helgeland, Curtis Hanson (baseado em romance de James Ellroy)
Direção: Curtis Hanson
Duração: 138 min.
Classificação: 18 anos
Onde assistir?: Disney+
Elenco:
Kevin Spacey
Russell Crowe
Guy Pearce
James Cromwell
Kim Basinger
Danny DeVito
David Strathairn
Ron Rifkin
Graham Beckel
Amber Smith
John Mahon
Paul Guilfoyle
Matt McCoy
Paolo Seganti
Simon Baker
Tomas Arana
Michael McCleery
Shawnee Free Jones
Darrell Sandeen
Marisol Padilla Sánchez
Gwenda Deacon
Jim Metzler
Brenda Bakke






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