Crítica | Michael (2026)
- Igor Biagioni Rodrigues

- há 1 dia
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Um filme covarde!
Por Igor Biagioni Rodrigues

O subgênero das cinebiografias musicais de Hollywood está saturado. Nos últimos anos, diversas produções foram lançadas, muitas delas marcadas pela mediocridade. O problema é que Michael não se encaixa sequer nesse rótulo: está muito abaixo disso. Trata-se de um filme que opta por uma versão higienizada da vida do artista e que, tecnicamente, também deixa a desejar.
O longa acompanha a trajetória de Michael Jackson (Jaafar Jackson), desde os primeiros sinais de seu extraordinário talento à frente dos Jackson Five até o início da era Bad, no final dos anos 1980. O drama biográfico retrata as aspirações criativas de um artista determinado a ocupar um lugar entre os maiores nomes do entretenimento mundial, explorando também os caminhos percorridos além dos palcos e dos holofotes, especialmente sua complicada relação familiar com o pai, Joseph Jackson (Colman Domingo).
O filme já se tornou um sucesso de bilheteria, algo inevitável diante do fato de retratar a vida de um dos maiores artistas da história da música, além de uma figura constantemente cercada por polêmicas. A questão é que essas polêmicas permanecem apenas nos bastidores.
Apesar de ser roteirizado por John Logan — responsável por obras como Gladiador (2000), O Aviador (2004), A Invenção de Hugo Cabret (2011), 007: Operação Skyfall (2012) e 007 Contra Spectre (2015) — e dirigido por Antoine Fuqua, de Dia de Treinamento (2001), o filme conta com a produção de Graham King, produtor do tenebroso Bohemian Rhapsody (2018), além da participação dos irmãos de Michael Jackson na produção e da atuação de seu sobrinho, Jaafar Jackson, no papel principal. Tudo isso já servia como um alerta para os caminhos que o longa poderia seguir na representação do astro do pop.
E qual foi esse caminho? A mais completa higienização da figura de Michael Jackson, transformado em um ser puro, sem defeitos e vítima exclusiva de um pai abusivo. O roteiro escolhe construir o arco do personagem como uma jornada de superação de sua relação com o pai, indo do medo à liberdade, sem jamais apresentar qualquer aspecto mais sombrio do artista. Não há espaço para abordar seu vício em medicamentos, comportamentos tóxicos em relacionamentos ou outras contradições frequentemente exploradas em cinebiografias musicais, como acontece em Rocketman (2019), por exemplo.
E isso não se deve apenas à refilmagem pela qual passou o terço final da obra. Originalmente, o filme abordaria a primeira denúncia pública e formal de abuso infantil contra Michael Jackson, feita por Evan Chandler. No entanto, essa parte da história acabou removida devido a uma cláusula contratual relacionada ao caso, que impede sua representação em futuras produções audiovisuais (apesar de as cenas já terem sido gravadas, não entraram no filme). Mas o problema vai além dessa omissão específica. O longa também apaga diversos comportamentos e acontecimentos relevantes da vida do artista, como sua dependência de medicamentos após o acidente sofrido durante as gravações de um comercial em 1984, sua relação conturbada com outros artistas (Paul McCartney, por exemplo) e até mesmo sua relação com a religião. Michael era Testemunha de Jeová e enfrentou críticas de membros da própria congregação após o lançamento de Thriller, acusado de promover elementos ligados ao ocultismo, o que contribuiu para seu afastamento da instituição. Tudo isso é apagado para endeusar o cantor e fazer com que seu único arco dramático seja escapar das amarras ambiciosas e cruéis do pai.

O longa funciona como uma espécie de checklist da carreira de Michael Jackson, atravessando grandes sucessos, álbuns e acontecimentos marcantes, intercalados por momentos dramáticos de sua vida. O resultado é uma sucessão de episódios que apresentam uma infância sofrida, um artista brilhante, um pai opressor e uma ascensão meteórica.
No entanto, nem tudo deve ser descartado. A maquiagem e o figurino são excelentes e fazem da caracterização de Jaafar Jackson e Colman Domingo algo impressionante. Além disso, embora a atuação de Jaafar nas cenas dramáticas não seja particularmente memorável, seus números musicais impressionam. É espantosa sua capacidade de modular a voz, cantar e dançar de forma tão semelhante ao tio. Os números musicais, por sua vez, recriam com precisão apresentações ao vivo e videoclipes icônicos do Rei do Pop, algo que certamente se beneficia da experiência de Antoine Fuqua na direção de clipes para artistas como Prince, Stevie Wonder e Toni Braxton.

“Ah, mas se você não gostou, então não é fã de verdade.”
De fato, talvez eu não seja o maior conhecedor da obra de Michael Jackson nem alguém capaz de citar toda a sua discografia de cor. Mas, se fosse, provavelmente me sentiria ainda mais desrespeitado por um filme que coloca Michael em um pedestal inalcançável e santificado, apaga artistas e colaboradores fundamentais para sua trajetória (como o diretor John Landis e o produtor Quincy Jones) e constrói um espetáculo que mais se assemelha a uma atração de parque temático movida por momentos musicais embalados por uma nostalgia restauradora digna da retromania. O que diabos são esses termos? Vamos lá!
Para explicar como a nostalgia aparece na cultura de massa, a teórica Svetlana Boym distingue dois tipos principais: a nostalgia restauradora e a nostalgia reflexiva. A nostalgia restauradora busca recuperar o passado como ele supostamente teria sido, idealizando épocas vistas como mais estáveis, autênticas e melhores. Na indústria cultural, ela costuma se manifestar por meio da recriação detalhada de períodos históricos transformados em objetos de consumo e admiração.
Já a nostalgia reflexiva reconhece que o passado não pode ser recuperado. Em vez de tentar reconstruí-lo, ela reflete sobre as perdas, as mudanças e a passagem do tempo, muitas vezes adotando um tom melancólico ou crítico. Diferentemente da nostalgia restauradora, essa forma de nostalgia aceita a distância entre passado e presente e entende a memória como uma construção, e não como uma reprodução fiel da realidade. Em qual dos dois tipos essa adoração pelo filme pelos fãs do cantor se encaixa?
Já o jornalista, Simon Reynolds, introduz o conceito de retromania para descrever a condição da cultura pop no século XXI, marcada por uma obsessão recorrente pelo passado. Para o autor, se a nostalgia pode ser compreendida como um sentimento, a retromania configura-se como um comportamento cultural e uma lógica de produção da indústria cultural. Ou seja, Michael é só mais um filme que apela para uma nostalgia a fim de lucrar.
Em sua excelente análise sobre o filme, Max Valarezo, do canal Entre Planos, compara o que Michael faz ao criar um escapismo de entretenimento com a própria postura do artista diante da realidade. Assim como Michael Jackson se refugiava em fantasias associadas a Peter Pan, parques temáticos e animais exóticos, o filme também constrói um universo artificial para fugir de qualquer enfrentamento dos aspectos mais complexos de sua trajetória. É enganar o fã por dinheiro.

Se narrativamente o filme é fraco, poderia ao menos ousar em sua forma. Mas nem isso acontece. Elvis (2022) pode ser clichê em diversos aspectos, mas sua montagem frenética o aproxima da linguagem dos videoclipes. Better Man (2025) ousa ao contar a história de Robbie Williams através da figura de um chimpanzé antropomórfico, criando momentos cartunescos permeados por realismo fantástico. E o que dizer de Peça por Peça? (2024) Uma obra que narra a trajetória de Pharrell Williams utilizando animação em Lego.
Já a direção e a montagem de Michael são preguiçosas. Com exceção das cenas musicais, que concentram praticamente toda a criatividade e energia do projeto, os enquadramentos seguem um padrão protocolar, frequentemente recorrendo ao básico plano e contraplano. A montagem, por sua vez, insiste em marcar a passagem do tempo por meio de grandes letreiros e planos gerais acompanhados de datas, numa solução visual pouco inspirada.

Em suma, Michael é um filme covarde: frenético por fora e vazio por dentro. A obra simplesmente encapsula acontecimentos em uma corrida incessante rumo ao próximo momento icônico, transformado em mais um número musical que recria videoclipes e apresentações de forma quase fetichista. Ao fazer isso, ele eleva a figura de Michael Jackson à condição de mito, mas nunca permite que nos aproximemos verdadeiramente do homem por trás da lenda. Pelo contrário: quanto mais o idolatra, mais o distancia do espectador. Como se isso não bastasse, encerra sua narrativa de maneira abrupta e ainda nos ameaça com uma continuação.
É uma pena que uma das figuras mais intensas, criativas e talentosas da cultura pop tenha recebido uma representação tão superficial em uma cinebiografia.
Para quem só se importa com números:
Nota- 4/10.
Ficha Técnica:
Título Original: Michael
País de Origem: Estados Unidos
Roteiro: John Logan
Direção: Antoine Fuqua
Duração: 127 min.
Classificação: 12 anos.
Elenco:
Jaafar Jackson
Nia Long
Juliano Valdi
KeiLyn Durrel Jones
Laura Harrier
Jessica Sula
Mike Myers
Miles Teller
Colman Domingo






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