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Crítica | Pecadores (2025)

  • Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
    Igor Biagioni Rodrigues
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Apropriação cultural, blues e vampiros…

Por Igor Biagioni Rodrigues.


Pecadores
Pôster de "Pecadores"- Warner/Reprodução.

Pecadores é, no mínimo, um filme diferente, e digo isso da melhor forma possível. Trata-se de uma obra difícil de enquadrar em categorias fechadas. Sua força não está apenas na impressionante execução técnica conduzida por Ryan Coogler e sua equipe, mas, sobretudo, nas metáforas de vampirismo social e na maneira como o filme eleva o afro-surrealismo a um novo patamar dentro do cinema mainstream. Mas antes de entrar nessas questões, vamos ao filme em si.


Em Pecadores, Michael B. Jordan interpreta irmãos gêmeos que retornam à cidade onde cresceram, no Mississippi, carregando uma fortuna roubada de ninguém menos que Al Capone, em Chicago. Com esse dinheiro, os dois compram uma antiga serralheria pertencente à Ku Klux Klan (o filme se passa em 1932) e decidem transformá-la em um clube de blues, convidando o primo Sammie, filho de um pastor, para cantar. No entanto, problemas que pareciam enterrados vêm à tona quando uma presença maligna passa a persegui-los, despertando medos, traumas e feridas ainda abertas. À medida que essa força sombria ameaça dominar a cidade e seus habitantes, a sobrevivência se transforma em uma luta constante. Mais do que enfrentar entidades sedentas por poder, e por sangue, Fumaça e Fuligem precisam confrontar lendas e mitos antigos que podem estar na origem desse terror.


No primeiro terço da narrativa, Coogler se dedica ao desenvolvimento dos personagens e à construção do pano de fundo histórico e social que os cerca. Essa escolha faz com que os conflitos físicos e as mortes violentas que surgem depois tenham muito mais impacto. O elenco é excelente, e as atuações acompanham esse nível. Personagens que poderiam facilmente cair no clichê; como os dois irmãos carismáticos e malandros vividos por Michael B. Jordan, Sammie (Miles Caton), o músico dividido entre o sagrado da igreja e o profano da música, a cozinheira conectada a saberes místicos ancestrais (Wunmi Mosaku), o músico alcoólatra (Delroy Lindo) e a jovem branca que se vê como parte daquele universo (Hailee Steinfeld); tornam-se figuras complexas, interessantes e cativantes.


Cena de "Pecadores"- Warner/Reprodução.
Cena de "Pecadores"- Warner/Reprodução.

Mas por que eu falei do afro-surrealismo, ou melhor, o que é o afro-surrealismo? O afro-surrealismo é uma corrente estética e cultural que recorre ao estranho, ao onírico e ao ilógico para expressar a vivência contemporânea da população negra. Ao contrário do surrealismo europeu, voltado à emancipação do inconsciente frente à razão, o afro-surrealismo parte da ideia de que a própria realidade negra, atravessada por séculos de violência, deslocamentos forçados e resistência, já possui um caráter surreal em si. Por meio de narrativas e imagens fragmentadas, essa abordagem articula espiritualidades africanas com experiências urbanas atuais, revelando camadas profundas de identidade, trauma e existência.


Nesse sentido, Pecadores é um representante exemplar dessa estética. Coogler utiliza elementos surreais para trabalhar a experiência histórica e social de ser negro nos Estados Unidos. A música se torna o eixo central dessa construção simbólica: o diretor cria uma mitologia que fala diretamente sobre ancestralidade e legado. Não é à toa que um dos motores narrativos do filme reside no poder da música, no caso, do blues especialmente quando interpretado por alguém de talento extraordinário, como Sammie, de romper a membrana entre tempo e espaço, fazendo passado, presente e futuro coexistirem de forma orgânica. Essa ideia se materializa na melhor sequência do filme, quando Sammie canta I’ve Lied to You, cena que, além de evocar a ancestralidade afro-americana, também faz um breve aceno aos imigrantes asiáticos. Esse poder, no entanto, atrai o mal: Remmick, um vampiro irlandês que canta e toca música folk.


Pecadores
Cena de "Pecadores"- Warner/Reprodução.

Aqui está a grande metáfora do filme, aquela que faz com que Pecadores ultrapasse o terror banal, centrado apenas no susto, e utilize o gênero como ferramenta simbólica para expor medos e dores sociais. Os vampiros desejam o poder de Sammie; oferecem pactos, promessas e ilusões. Tudo isso funciona como uma alegoria da apropriação cultural e artística branca sobre a cultura negra. A leitura se estende facilmente ao mundo real: empresários e músicos brancos que se apropriaram do blues, misturaram-no ao country e deram origem a novos gêneros, num claro processo de vampirismo social. Indo além, o pacto proposto por Remmick pode ser lido como um acordo com o capitalismo, que oferece sobrevivência apenas por meio da corrupção. Esse dilema se materializa nos destinos opostos de Fuligem, que sucumbe, e Fumaça, que se torna mártir diante da opressão.


Gostaria de destacar também que o filme possui um latente teor sexual em algumas cenas, algo típico do gênero de terror. A forte relação entre filmes de terror e sexo não é por acaso; ela se baseia em conexões psicológicas profundas, convenções do gênero (tropos) e no objetivo de provocar reações intensas no público. Ambos os temas lidam com vulnerabilidade, perda de controle, perda de inocência e emoções extremas. Psicologicamente, a excitação e o medo produzem reações físicas semelhantes (aumento da adrenalina, dopamina e frequência cardíaca). O terror erótico, por exemplo, mistura prazer e desconforto, explorando o desejo perigoso. Mas aqui, essa sensualidade, desejo e liberdade estão presentes para contrastar com a opressão diária.

Mas o verdadeiro pecado (desculpem o trocadilho) do filme está justamente nos vampiros. Não me entendam mal: o aspecto místico funciona bem, porém sua alegoria social é muito mais potente do que quando os vampiros são apresentados como uma ameaça física concreta. O clímax, ao se transformar em um confronto direto entre humanos e vampiros, acaba soando aquém de tudo o que a película vinha construindo até então.


Pecadores
Hailee Steinfield e Michael B. Jordan em "Pecadores"- Warner/Reprodução.

Em suma, Pecadores é um filme que transita com liberdade entre gêneros, do terror ao musical, e se destaca por elevar o afro-surrealismo, utilizando elementos místicos e sobrenaturais para representar, de forma simbólica e poderosa, a vivência da população afro-americana nos Estados Unidos.


Para quem só se importa com números:

Nota- 8/10.


Ficha Técnica:

Título Original: Sinners

País de Origem: Estados Unidos

Roteiro: Ryan Coogler

Direção: Ryan Coogler

Duração: 138 min.

Classificação: 16 anos.


Elenco:

Michael B. Jordan como Elijah “Fumaça” Moore / Elias “Fuligem” Moore 

Hailee Steinfeld como Mary

Miles Caton como Sammie “Preacher Boy” Moore

Buddy Guy como Sammie Moore

Jack O’Connell como Remmick

Wunmi Mosaku como Annie

Jayme Lawson como Pearline

Omar Miller como Cornbread

Delroy Lindo como Delta Slim

Li Jun Li como Grace Chow


1 comentário


luisabiagionisilva
há uma hora

Muito boa a análise! Excelente conteúdo

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