Crítica | Sirât (2025)
- Igor Biagioni Rodrigues

- há 24 minutos
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Sarcástico e pseudo parnasiano
Por Igor Biagioni Rodrigues

Como o próprio filme anuncia, Sirāt é palavra árabe que designa o caminho entre o paraíso e o inferno, uma espécie de purgatório, algo que propõe-se a ser uma travessia. Dirigido e escrito por Oliver Laxe em parceria com Santiago Fillol, o longa constrói uma experiência sensorial que aparenta priorizar a forma, mas cuja suposta radicalidade revela-se vazia. A jornada que se desenha na tela caminha do nada para lugar nenhum, sustentada por uma estética que simula profundidade utilizando do choque para trazer atenção ao seu tema.
A narrativa acompanha Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez), que viajam ao Marrocos em busca de Marina, desaparecida após uma rave no deserto. Entre montanhas áridas e batidas eletrônicas, distribuem fotos da jovem até decidirem seguir um grupo rumo a uma última festa no coração do deserto. No percurso, criam laços, compartilham histórias e alimentam a esperança de reencontro.
Há méritos técnicos inegáveis: o desenho de som é esplendoroso, da pulsação das músicas à materialidade dos equipamentos, e a fotografia, rodada em 16mm, assume uma textura granulada que se torna progressivamente mais abstrata. A maioria dos personagens é interpretada por não atores (com exceção de Sergi López, ótimo intérprete), muitos deles encenando a si próprios e tendo seu modo de vida exposto em tela. O diretor viveu no Marrocos e conheceu essas pessoas e essa cultura de desprendimento frente ao modo de vida imposto pelo capitalismo tardio. Contudo, essa retratação acaba operando como desserviço: em meio a um mundo atravessado por guerras e conflitos, o filme sugere que nada importa além da fuga, seja pelo entorpecimento, seja por uma busca íntima que volta o olhar apenas para o interior e ignora o exterior.

Disse que o filme é pseudo parnasiano, vale explicar tal afirmação através da definição e características do parnasianismo e porque fiz tal paralelo.
O Parnasianismo foi um movimento literário que surgiu na França no final do século XIX, contemporâneo ao Realismo e ao Naturalismo, e chegou ao Brasil em 1882 com a publicação de Fanfarras, de Teófilo Dias. Seu nome deriva de Parnasse Contemporain, antologias francesas inspiradas no Monte Parnaso da mitologia grega, símbolo da poesia clássica. No Brasil, destacou-se até a Semana de Arte Moderna de 1922, tendo como principais representantes Olavo Bilac, Raimundo Corrêa e Alberto de Oliveira, a chamada tríade parnasiana.
De postura antirromântica, o Parnasianismo defendia a “arte pela arte”, valorizando a perfeição formal, a linguagem culta, o uso de sonetos e rimas raras, além do apego à tradição clássica e à mitologia greco-latina. Seus autores buscavam objetividade, racionalismo e impessoalidade, rejeitando o sentimentalismo e o subjetivismo romântico. Influenciado pelo cientificismo e pelo positivismo da época, o movimento priorizava a descrição precisa e a beleza formal da poesia, entendendo que a obra de arte deveria valer por si mesma, sem necessidade de explicações emocionais.
Nesse sentido, Sirât encena um curioso paradoxo: apresenta-se como obra de rigor formal, quase “parnasiana”, mas trai o próprio princípio que evoca. A estilização, que busca se afirmar como gesto autoral, opera como ornamento. Seus simbolismos e metáforas são previsíveis, preocupados em sublinhar o “tema” e amplificar o impacto sensorial.

Se o Parnasianismo defendia a arte pela arte e a autonomia da forma como valor absoluto, aqui a forma não se sustenta por si, ela é instrumento de legitimação temática. A crueza visual e a impassibilidade estética não configuram construção autônoma, mas estratégia de impacto. Pseudo parnasiano, o filme cultua uma forma que não existe enquanto essência, apenas como disfarce.
Para quem só se importa com números:
Nota- 5/10.
Ficha Técnica:
Título Original: Sirât
País de Origem: França e Espanha
Roteiro: Oliver Laxe, Santiago Fillol
Direção: Oliver Laxe
Duração: 120 min.
Classificação: 16 anos
Elenco:
Sergi López como Luis
Brúno Nuñez como Esteban
Stefania Gadda como Jade
Joshua Liam Henderson como Josh
Tonin Janvier como Tonin
Jade Oukid como Jade
Richard Bellamy como Richard






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