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Crítica | A Voz de Hind Rajab (2025)

  • Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
    Igor Biagioni Rodrigues
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Uma voz que jamais será esquecida…

Por Igor Biagioni Rodrigues.

A Voz de Hind Rajab
"A Voz de Hind Rajab"- Divulgação.

A Voz de Hind Rajab é um filme sufocante, doloroso, comovente e absolutamente necessário. Uma obra que transita entre ficção e realidade com impressionante sensibilidade e rigor, prendendo o espectador do primeiro ao último minuto. É daquelas experiências que apertam o peito, inquietam o corpo e deixam um silêncio pesado após os créditos. Sua mensagem é direta e urgente: basta de guerra.


Ambientado na Faixa de Gaza, o longa reconstrói a trágica história de Hind Rajab, uma menina de apenas seis anos que se refugiou no carro do tio quando o veículo foi atingido em um ataque do exército israelense. Presa entre os corpos dos familiares e os destroços, Hind passou cerca de três horas ao telefone com voluntários do Crescente Vermelho, implorando por socorro. A narrativa dramatiza esses acontecimentos incorporando os áudios reais da criança e os registros das tentativas de resgate humanitário em meio ao caos dos ataques. O filme se transforma, assim, em uma denúncia contundente e em um retrato cru de um acontecimento que chocou o mundo.


No escritório do Crescente Vermelho, onde pedidos de ajuda semelhantes são coordenados diariamente, acompanhamos Omar (Motaz Malhees), que atende o primeiro chamado da família; Rana (Saja Kilani), que permanece em contato constante com Hind; Nisreen (Clara Khdury), assistente social da equipe; e Mahdi (Amer Hiehel), o coordenador que hesita por horas antes de autorizar o resgate. Sua relutância não nasce da indiferença, mas do perigo real: qualquer rota não autorizada pelo exército israelense pode significar a morte imediata dos motoristas da ambulância. Outros socorristas já tombaram, e cada decisão carrega o peso de vidas.


A Voz de Hind Rajab
"A Voz de Hind Rajab"- Divulgação.

Dirigido e roteirizado por Kaouther Ben Hania, o filme se desenrola em claustrofóbicos 89 minutos praticamente confinados a um único espaço. Essa escolha estética intensifica o sufocamento emocional da narrativa. As atuações são viscerais, capazes de transmitir; ainda que jamais reproduzir plenamente, uma vez que seria impossível; o desespero, a angústia e a impotência daqueles que tentam salvar uma criança a quilômetros de distância. Nós, espectadores, separados física e temporalmente dos fatos, só podemos assistir, incrédulos, ao desenrolar de tudo. 


A direção de Ben Hania é precisa e sensível. Para evitar a monotonia de um cenário único, além do fato de que se o longa focasse apenas nas conversas com a garotinha ele correria o risco de se tornar cansativo, ela constrói tensões internas entre os personagens, revelando conflitos, medos e frustrações diante da burocracia que atrasa a ajuda. Em certos momentos, o filme peca por ser excessivamente literal ao explicar procedimentos e entraves literalmente os desenhando, mas isso nunca diminui sua força. Pelo contrário, a cineasta compensa com uma linguagem visual inventiva: ora os áudios reais conduzem a cena enquanto os atores surgem desfocados ao fundo, ora imagens autênticas dos socorristas se misturam à dramatização, dissolvendo qualquer fronteira entre documentário e ficção. O resultado é um diálogo poderoso entre realidade e representação, que amplia o impacto emocional e reforça a veracidade do que é mostrado.


A Voz de Hind Rajab não termina quando a tela escurece. Ela permanece ecoando dentro de quem assiste. É um filme sobre impotência, mas também sobre a recusa à indiferença. Um grito contra a normalização da barbárie. Uma obra que transforma dor em memória, e memória em denúncia.


Que a voz de Hind não seja apenas ouvida, mas lembrada. E que, ao lembrarmos dela, sejamos incapazes de aceitar a guerra como algo inevitável.


Para quem só se importa com números:

Nota- 9/10.


Ficha Técnica:

Título original: صوت هند رجب

País de origem: Tunísia, França e Estados Unidos

Roteiro: Kaouther Ben Hania

Direção: Kaouther Ben Hania

Duração: 89 min.

Classificação: 14 anos


Elenco:

Saja Kilani

Clara Khoury

Motaz Malhees

Amer Hlehel

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