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Crítica | Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026)

  • Foto do escritor: Igor Biagioni Rodrigues
    Igor Biagioni Rodrigues
  • há 52 minutos
  • 4 min de leitura

Slasher, metalinguagem e orgasmo em Hollywood 

Por Igor Biagioni Rodrigues

Acampamento Miasma
Cena de 'Acampamento Miasma' - Reprodução: Divulgação

Adolescência, Sexo e Morte. É praticamente impossível pensar em slasher (é um subgênero do terror caracterizado pela presença de um assassino psicopata, muitas vezes mascarado, que persegue e elimina suas vítimas, geralmente um grupo de jovens, uma a uma) sem que essas três palavras apareçam na cabeça em algum momento. Desde suas origens, o subgênero transformou os medos, desejos e transgressões da juventude em combustível para o horror, frequentemente colocando corpos adolescentes (sobretudo femininos) no centro da violência. Dirigido por Jane Schoenburn Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte parte justamente desse imaginário para construir uma obra que olha para o slasher ao mesmo tempo com nostalgia, mas principalmente com crítica.


No filme, uma jovem cineasta queer, interpretada por Hannah Einbinder, é contratada para comandar os bastidores do reboot da franquia decadente de terror Acampamento Miasma. A nova produção pretende resgatar a icônica final girl do filme original, personagem interpretada por Gillian Anderson. E desse encontro entre cineasta e atriz veterana nasce uma relação que levará a dupla para uma sangrenta e desorientadora realidade em que ficção e fato se chocam. 


Acampamento Miasma
Cena de 'Acampamento Miasma' - Reprodução: Divulgação

Ao misturar cinema, horror e metalinguagem, o filme ganha muita força. Acampamento Miasma não reproduz os clichês do slasher de maneira gratuita, mas os desmonta e questiona o que existe por trás de décadas de filmes construídos a partir da exploração do corpo, da sexualidade, preconceitos e da violência. Vale destacar que Jane Schoenburn, é uma pessoa trans não-binária, e já havia explorado a quebra de convenções narrativas do terror para debater questões de identidade de gênero nos seus dois filmes anteriores (“Vamos Todos à Exposição Mundial” e “Eu Vi o Brilho da TV”), e aqui, não é diferente. 


Existe uma interessante sensação de nostalgia ao longo do filme, mas não aquela nostalgia confortável que transforma o passado em um lugar perfeito. O longa reconhece o fascínio exercido pelo slasher clássico, sua estética, seus clichês e sua capacidade de produzir imagens marcantes, ao mesmo tempo em que expõe as estruturas problemáticas que acompanharam o gênero durante boa parte de sua história. O machismo, a transfobia, a objetificação dos corpos e a própria lógica industrial de transformar traumas e sexualidade em mercadoria aparecem como parte desse processo.


O filme parece compreender que não basta simplesmente fazer um novo slasher e trocar seus protagonistas. É preciso questionar por que continuam contando essas histórias da mesma maneira e quem, historicamente, teve seu corpo colocado diante da câmera para que elas funcionassem.


Acampamento Miasma
O assassino Little Death em 'Acampamento Miasma' - Reprodução: Divulgação

Ao mesmo tempo, Acampamento Miasma utiliza os próprios clichês do subgênero como ferramentas narrativas e simbólicas. A violência, a sexualidade, a perseguição e até mesmo determinadas convenções do slasher parecem funcionar como uma grande alegoria para o desejo e, especialmente, para o orgasmo feminino. A ideia é provocadora e dá ao filme uma camada de leitura bastante curiosa, embora seja justamente nesse aspecto que eu reconheça meu limite de interpretação (afinal, é uma experiência que parte de uma perspectiva muito específica sobre o corpo e a sexualidade feminina, e não é exatamente o meu lugar de fala para determinar o alcance dessa alegoria). Ainda assim, é uma proposta que contribui para a sensação de que o filme está constantemente brincando com as fronteiras entre prazer e horror, desejo e violência, espetáculo e exploração. 


Visualmente, o longa também merece destaque. O design de produção é um dos elementos que melhor traduzem essa mistura entre nostalgia e estranhamento. Os cenários, figurinos e objetos parecem pertencer simultaneamente a um passado cinematográfico reconhecível e a um universo ligeiramente deslocado da realidade. Essa escolha contribui para o caráter onírico do filme, como se estivéssemos assistindo a uma lembrança de um slasher que nunca existiu exatamente daquela maneira, isso sem contar a direção de fotografia e a escolha das cores na composição de certas cenas, como por exemplo o céu com cores laranja, branca, rosa e roxo (uma alusão a bandeira sunset?).


Acampamento Miasma
Cena de 'Acampamento Miasma' - Reprodução: Divulgação

Porém, apesar de todas essas ideias interessantes, acredito que o filme acaba se perdendo um pouco em determinados momentos. A quantidade de conceitos que tenta articular, metalinguagem, crítica à indústria, sexualidade, gênero, nostalgia, transfobia, machismo e a própria história do slasher, faz com que algumas dessas discussões pareçam mais sugeridas do que efetivamente desenvolvidas. Há momentos em que a alegoria parece mais interessante do que aquilo que o roteiro consegue construir ao seu redor.


Mesmo assim, Acampamento Miasma é uma experiência curiosa por não se contentar em ser apenas mais um slasher. É um filme que entende o fascínio pelo subgênero, mas também entende que esse fascínio precisa ser questionado. Ao olhar para o passado sem simplesmente idealizá-lo, transforma o próprio esgotamento do slasher em matéria-prima para falar sobre a indústria cinematográfica, sobre nossos desejos e sobre a maneira como o cinema historicamente transformou corpos e transgressões em espetáculo.


Em suma, Acampamento Miasma é um filme sobre adolescência, sexo e morte, mas também sobre o que acontece quando tentamos revisitar esses três elementos depois de perceber que não estávamos olhando para ele de maneira correta.


Para quem só se importa com números:

Nota- 8/10.


Ficha Técnica:

Título Original: Teenage Sex and Death at Camp Miasma

País de Origem: Estados Unidos

Roteiro: Jane Schoenburn

Direção: Jane Schoenburn

Classificação: 18 anos

Duração: 112 min.


Elenco:

Gillian Anderson

Hannah Einbinder

Patrick Fischler

Jack Haven

Zach Cherry

Dylan Baker

Jasmim Savoy Brown

Jess McLeod

Quintessa Swindell

Amanda Fix

Ryan McEwen

Eva Victor

Sarah Sherman

Kevin McDonald

Arthur Conti

Hunter Dillon


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