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Quadrinhos e religião

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    Iuri Biagioni Rodrigues
  • há 19 horas
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 14 horas

Já parou para pensar na relação entre histórias em quadrinhos e religião?

Por: Iuri Biagioni Rodrigues

Quadrinhos e religião

Apresentação


Dando sequência aos textos relacionados aos quadrinhos e algumas áreas do conhecimento vamos abordar alguns pontos de intersecção entre as HQs e a religião. Já temos textos específicos, como Demolidor: o super-herói católico, Os arquétipos mitológicos/religiosos dos super-heróis e Teologia e o gênero da superaventura, mas agora traremos uma visão mais geral.


Introdução


A religião é um elemento indelével da vida em sociedade, estando presente desde os primeiros agrupamentos humanos. Além disso, está sempre presente no nosso cotidiano, direta ou indiretamente, quer queiramos, quer não. Conforme Rubem Alves, é preciso “reconhecê-la como presença invisível, sutil, disfarçada, que se constitui num dos fios com que se tece o acontecer do nosso cotidiano. A religião está mais próxima de nossa experiência pessoal do que desejamos admitir” (página 13 do livro O que é Religião?).


Desse modo, é possível notar a presença da religião em diversas manifestações artísticas e nos produtos culturais. Logo, nos quadrinhos não seria diferente. De um modo geral, a religião pode aparecer de muitas formas dentro uma história em quadrinhos: na intencionalidade da narrativa ou como um recurso narrativo (elementos religiosos usados de maneira proposital).


Assim, a religião pode aparecer na crença dos personagens, nos cenários, nos objetos, nos diálogos, na temática principal e nos valores, podendo legitimar uma religião específica, criticá-la ou apenas ser influenciada por ela.


Para exemplificar, podemos citar a editora brasileira 100% Cristão, fundada em 2013 com a proposta de investir no universo geek cristão. Desse modo, seu catálogo é composto por diversos quadrinhos que adaptam passagens da Bíblia, contam histórias de personagens bíblicos e criam personagens e histórias que buscam transmitir princípios e valores cristãos. Trata-se de um produção de caráter confessional voltada para o público evangélico de diversas idades. A editora até fez uma parceria com a Mauricio de Sousa Produções (MSP) na publicação do Devocional da Turma da Mônica.


Outro exemplo dessa versatilidade da relação entre quadrinhos e religião é a produção do quadrinista Hugo Canuto, autor da série Contos dos Orixás, que adapta a mitologia e as tradições orais afro-brasileiras, trazendo histórias das divindades e dos heróis ancestrais. A obra tem influência do traço do quadrinista Jack Kirby, conhecido por ter criado e cocriado muitos super-heróis como Capitão América, Quarteto Fantástico, Thor, Hulk, Surfista Prateado, Desafiadores do Desconhecido, Eternos, Órion, Senhor Milagre, Etrigan e muitos outros. O trabalho de Canuto é fruto de uma extensa pesquisa e apresenta palavras em Yorubá devidamente explicadas em um glossário, levando o público leitor a despertar seu interesse pelos itans, histórias, contos e lendas que narram a trajetória dos orixás e dos ancestrais.


No próximo tópico, vamos a profundar um pouco a discussão sobre a intersecção entre religião e HQs.


Pontos de intersecção entre religião e histórias em quadrinhos

De acordo com o professor e pesquisador Iuri Andréas Reblin, podemos encontrar três três pontos de intersecção entre os quadrinhos e a religião: quadrinhos como produção religiosa, quadrinhos com temas reconhecidamente religiosos e quadrinhos que expressam o universo simbólico e de sentido. Vamos ver cada uma de maneira separada.


1) Quadrinhos como produção religiosa: como o nome indica, esta categoria refere-se às obras que possuem uma finalidade confessional. Sendo assim, são histórias que apresentam o discurso religioso oficial de uma tradição ou denominação religiosa específica. Em alguns casos, são quadrinhos lançados como apoio institucional ou por uma editora ligada a alguma denominação ou assumidamente religiosa, como a já mencionada 100% Cristão ou a editora estadunidense David C. Cook.


Exemplos:

  • Bíblia em Ação, de Sergio Cariello (o autor também fez derivados como Novo Testamento em Ação, Começa a Batalha e Bíblia em Ação: devocional);

  • Bíblia Kingstone, vários autores;

  • Bíblia Comics, de Sergio Cariello;

  • A Vida de João Paulo Segundo, de Dominique Bar, Louis Bernard Koch e Guy Lehideux;

  • Carlo Acutis, um santo jovem, de Camille W. de Prévaux e Fabrizio Russo;

  • Smilinguido, de Márcia d’Haese e Hialmar D'Haese;

  • Mig e Meg, de Márcia d’Haese;

  • A Turma do Biblincando, da editora ComDeus e é primeira publicação católica de quadrinhos no Brasil (1966);

  • Turminha da Graça, produzida pela Graça Editorial do pastor e televangelista R. R. Soares;

  • Vamos Rezar: A Turma do Xaxado, de Antonio Cedraz;

  • Devocional Turma da Mônica;

  • Nosso Amiguinho, da Editora Casa Publicadora Brasileira (CPB) e personagens criados por Ivan Schimidt e Heber Pintos;

  • Kardec em quadrinhos, de Luis Hu Rivas;

  • Quadrinhos Fraternos, de Marcelo Tibúrcio.

    Quadrinhos como produção religiosa
    Quadrinhos como produção religiosa - Capas de algumas das obras mencionada acima

2) Quadrinhos com temas reconhecidamente religiosos: são histórias que contém assuntos, temas, acontecimentos, símbolos e argumentos que se relacionam diretamente com a religião, mas sem um compromisso com uma determinada denominação religiosa. Ou seja, os quadrinhos desta categoria têm uma clara influência de elementos religiosos em sua narrativa, porém sem a finalidade confessional. É interessante notar que as obras deste tópico também podem funcionar como crítica ou sátira.


Para Iuri Reblin, as histórias em quadrinhos desta categoria apresentam elementos da Teologia do Cotidiano, ou seja, elementos religiosos que surgem no dia a dia das relações, na aproximação de experiências de vida, de morte, de existência, da partilha de um imaginário religioso coletivo e que visam responder a uma determinada situação. Enfim, a Teologia do Cotidiano busca reconhecer como as pessoas estão usando referências religiosas nas narrativas que são uma “bricolagem decorrente da experiência cotidiana e do trânsito simbólico-religioso que acontece no dia a dia” (Reblin, 2020, p. 72).


Exemplos:

  • Tiras de Um Sábado Qualquer, de Carlos Ruas;

  • X-Men Deus Ama, o Homem Mata de Chris Claremont e Brent Anderson

  • Surfista Prateado Párabola, de Stan Lee e Moebius - editora: Marvel (EUA) e Panini (Brasil);

  • Demolidor: O Diabo da Guarda, de Kevin Smith e Joe Quesada;

  • Reino do Amanhã, de Mark Waid e Alex Ross;

  • Superman Paz na Terra, de Paul Dini e Alex Ross;

  • Liga da Justiça: Paraíso Perdido, de Mark Millar e Ariel Olivetti;

  • Liga da Justiça: Escada para o Céu, de Mark Waid e Bryan Hitch;

  • O retorno do Messias, de Mark Russel e Richard Pace;

  • Preacher de Garth Ennis e Steve Dillon;

  • Yeshua, de Laudo Ferreira e Omar Viñole ;

  • Buda, de Ozamu Texuka;

  • Deus Segundo Laerte;

  • De onde viemos?, organizado por Carlos Ruas;

  • Retalhos e Habibi, ambos de Craig Thompson;

  • American Jesus, de Mark Millar e Peter Gross;

  • Série Orixás, organizada por Alex Mir;

  • Persépolis, de Marjane Satrapi;

  • Um Contrato com Deus, de Will Eisner;

  • AfroHQ, de Amaro Braga, Danielle Jaimes e Roberta Cirne;

  • São Jorge da Mata Escura, de Marcello Fontana e André Leal;

  • São Jorge, de Danilo Beyruth

Quadrinhos com temas reconhecidamente religiosos:
Quadrinhos com temas reconhecidamente religiosos - capas de algumas das obras citadas acima

3) Quadrinhos que expressam o universo simbólico e de sentido: esta categoria é um pouco mais complexa e vasta, pois "nessas histórias, não há uma identificação, nem uma pretensão, ou mesmo uma fronteira clara do que é ou não é religioso (Reblin, 2020, p. 76). Aqui, as histórias podem remeter a temas, símbolos, mitos, ritos e objetos que remetem às religiões em geral, porém não necessariamente nem diretamente.


As HQs dessa categoria não são identificadas como religiosas pelas pessoas leitoras e, muitas vezes, nem pelos criadores, porque não há uma intenção religiosa nelas. Desse modo, a percepção de eventuais elementos religiosos ocorrerá quando alguém decide realizar uma análise mais profunda da narrativa. Entretanto, é preciso tomar cuidado para não querer ver religião em tudo.


Alguns quadrinhos que se encaixam nessa categoria são: algumas tiras de Peanuts, de Charles M. Schulz; Mafalda, de Quino, pois podem permitir reflexões teológicas; quadrinhos de super-heróis, pois são histórias de salvação e lidam com temas como bem e mal e outros que são caros à religião (leia mais sobre isso aqui); algumas HQs de Tex, que apresentam elementos das religiões dos indígenas dos EUA e do vodu; Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima; Kimetsu no Yaiba (Demon Slayer), de Koyoharu Gotouge; Nausicä do Vale do Vento de Hayo Miyazaki, porque esses mangás apresentam algumas influências de religiões orientais, como o Xintoísmo e o Budismo, em suas tramas.

Quadrinhos que expressam o Universo simbólico e de sentido
Quadrinhos que expressam o Universo simbólico e de sentido - capas de algumas das obras citadas acima

Dicas de leitura

Se você quiser saber mais sobre essa relação entre quadrinhos e religião, indico algumas obras que podem ajudar:


1) Religiosidade nas Histórias em Quadrinhos: livro organizado por Iuri Andréas Reblin e Amaro Xavier Braga Jr. para a Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS). A obra reúne textos de diversos autores e autoras que analisam a presença de elementos religiosos nas HQs. Acesse e baixe gratuitamente aqui;


2) Teologia Nerd: livro organizado por Carlos Ribeiro Caldas Filho que busca demonstrar como quadrinhos, filmes e séries veiculam convicções teológicas e conteúdos religiosos. O livro conta com a participação de vários autores e dois textos diretamente relacionados aos quadrinhos;


3) O Alienígena e o Menino: este livro é fruto da tese de doutorado em Teologia de Iuri Andréas Reblin e dedica-se à análise de elementos religiosos cristãos nos personagens Superman e Capitão Marvel (Shazam), respectivamente, por meio das histórias Paz na Terra e Poder da Esperança. Além disso, em sua conclusão, apresenta aproximações entre a Teologia e o gênero da superaventura;


4) Produção e circulação de publicações de quadrinhos religiosos no Brasil (1960-2014): neste livro, Amaro Xavier Braga Jr. analisa a produção, evolução e distribuição de quadrinhos religiosos no território brasileiro. O estudo abrange obras católicas, evangélicas, espíritas e de religiões de matriz africana, tanto de editoras grandes quanto pequenas, além de HQs independentes. O livro conta com gráficos que ajudam no entendimento e visualização dos dados encontrados na pesquisa;


5) Nossos Deuses São Super-heróis: esse livro, de Christopher Knowles, aborda algumas aproximações entre os super-heróis e cultos religiosos, seitas secretas e esoterismo, mas, na minha opinião, as partes mais interessantes são quando ele apresenta os arquétipos mitológicos/religiosos dos super-heróis e quando considera os super-heróis como mitos contemporâneos, exercendo a mesma influência dos deuses antigos;


6) Animando as Mangas II: Linguagem, religião, mangás e animês: neste livro organizado por Nataniel dos Santos Gomes e Leonardo Gonçalves de Alvarenga, você encontra artigos variados de diferentes autores e autoras analisando a presença da religião (e seus elementos) nos quadrinhos japoneses;


7) Dossiês da Revista acadêmica Teoliterária: em 2019, a revista publicou dois volumes intitulados "Teologia e Literatura no universo das Histórias em Quadrinhos". Os volumes foram editados por Antonio Manzatto e Carlos Caldas e podem ser lidos aqui e aqui.


Além das obras, você pode procurar pela produção acadêmica de autores como Iuri Andréas Reblin, Carlos Ribeiro Caldas Filho, Nataniel dos Santos Gomes, Amaro Xavier Braga Jr., Nobu Chinen, Renato Fernandes Lobo e Vanderlis Legramante Barbosa.


Texto produzido com base na obra "Histórias em quadrinhos : perspectivas religiosas e possibilidades hermenêuticas" de Iuri Andréas Reblin

1 comentário


José Setembrino de Melo
José Setembrino de Melo
há 6 horas

Interessante a abordagem do texto, pois é muito difícil enxergar teologia e relação religiosa nesses Guarulhos, à primeira vista

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